terça-feira, 15 de maio de 2012











Arte de Hermann Nitsch



Eu fecho os olhos antes
de apagar as luzes
Apago a chama antes
de riscar o fósforo
e me rabisco todo antes
de me corrigir

Antecipar a falta nunca foi atenuar
a dor das embarcações partindo
Recolher antes da queda
pétalas das mães e dos filhos
Antecipar a falta nunca foi tentativa
frustrada de redefinir ausências
pela negação desse meu planeta
girando

Que teu avião ultrapasse a curva
Que tuas idéias evaporem
Que todos os teus cavalos corram livres
nos campos que ainda são sementes
Que eu não construa represas a tua inundação
Que meu livro termine
Que minha música se interrompa em navalha
Que meus mil e duzentos proletários ludistas
não emperrem a máquina do mundo
Que eu não cobre a vida que não é minha
nem nunca foi

Que meus amores não vivam no futuro
e que meus futuros filhos
me façam nascer de novo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012




Caminha Rua da Praia
e "oi, tu tens aquele título?"
tropeça Riachuelo
e desce a Rua da Ladeira
da tua garganta.

Uma e quinze o trabalho começando
paciente ansioso
na sala de espera
Weber, Durkheim, Deleuze
e a tua cintura se dobrando
nas minhas pernas.

Foucault, Hegel, Heidegger
a dialética, o ser e o tempo
do teu chá quase fervendo.

Lacan segunda prateleira, Sponville na primeira,
um claro enigma já dentro da minha bolsa
e o brilho dos teus olhos
anunciando os pássaros logo cedo.

Mas corre
te concentra
não perde o ponto, rapaz.
-Rita Kehl e as crônicas do quê?
perguntam enquanto eu só penso
nas manchetes do teu nome.