quarta-feira, 4 de janeiro de 2012




curvo as pálpebras
e continuo com os olhos aqui
nestas mesmas crateras de carne
orbitando cada vez mais perto
do centro.

cortamos o tronco da Sequóia
pelo acanhamento de dobrar as pernas
não como o prelúdio do salto
ou instruções do ballet clássico
ou as aulas de aeróbica nas terças-feiras

minha partitura é o recolhimento
os tons do inverno
a expansão da cama
o vácuo nas ataduras da múmia.

quem sabe isso não seja
uma boa saída
a cada dia depositar
tal qual cofrinho de porco norte-americano
em caixinhas mínimas
um bocadinho de vida

levarei cerca de oitenta dias
me socorrendo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Arte de Caspar David Friedrich



cruzaríamos o Pacífico
não fossem as rotas alteradas
e as dorsais pontiagudas das palavras.
em arquipélagos deixaríamos nossa bagagem
não fossem as ataduras da pele
e suas esquinas imóveis

ou a pontuação ártica
de nossos chakras.

reduziríamos à estepe-superfície
todas as florestas equatoriais dos cílios
não fossem os grãos de deserto guardados
dentro dos bolsos.

enquanto isso
façamos o trabalho que não nos leva
a ponto algum do globo.
rolha flutuante
do ano novo passado.

costurar os retalhos das nuvens
em um grande lençol que cubra o tempo
enquanto o seu lobo não vem.