quinta-feira, 23 de agosto de 2012

E agora você vê
o estrago de suas reduções
trabalha o barro n'água
para novos artesanatos
acompanha a areia
em ritmo de mar
e como grandes aeroportos
limpa vidraças na despedida

não é possível saber
a família dos pingos
que inundam seu banheiro
mancham as paredes
e infiltram o andar de baixo
para continuar pingando

a gravidade não hesita
ao empurrar os dias
contra o corpo
eles descem como nós
as escadarias da neblina

e agora você vê
seus pequenos holocaustos
pedem água
essa que transborda
cumpre distâncias impossíveis
fluxo de tempo úmido
indizível.






segunda-feira, 13 de agosto de 2012






















Arte de Paul Klee

assim como os aquedutos
onde a água
nunca é espelho

onde nada é reflexo
do tempo

onde só é trajeto
a sede

onde só serei grão
erosivo

onde não seremos nada além
de movimento

abastecerei cidades
com a fartura
de meus passos lentos.


sábado, 21 de julho de 2012


nessa sua barriga
bem no meio dela

tem uma fenda enorme
que joga luz no quarto
fica branco
tudo cega
porcelana fina,
não te quebras?

onde vou enfiar o tempo
se te ocupas gorda
por todos os meus cantos?

já tentei de tudo
anteparos e sunglasses
escudo protetor e barreira
anti-mísseis.

que nada
teu raio passa
todas as defesas

nessa sua barriga
bem no meio dela.

quinta-feira, 12 de julho de 2012



é uma pena
e também uma dor quase sem fim
mas não somos capazes de
domesticar o tempo
essa cobra de vidro que rasteja
sem pingar veneno
concentrando-lhe todo e letal

flecha que cruza azul
os hemisférios do teu corpo.

segunda-feira, 2 de julho de 2012




















Arte de: Francis Bacon



Os olhos abertos
não fechados
não são qualquer coisa
que não lembrança.

Apesar do escuro 
se vingar lembrando.

Lembrança:
a casa de vidro
que embaça.

Os olhos fechando
qual cortina
de espetáculo que acaba
e sou eu o palhaço
bobo que tropeça num giro
deitando no palco.

segunda-feira, 25 de junho de 2012



gostaria de ser mais inteiro
que as palavras saíssem todas
que as expressões saíssem todas
que meu corpo todo fosse deglutido
com maior naturalidade

mas a palavra quebra
o rosto duro
e me recolho em peças.

gostaria de ser mais inteiro
honestamente alguém diria:
só queres ser entendido, Lorenzo
honestamente alguém diria:
só queres ser explicável.

esse móbile de pássaros de plástico
não abandona meu teto
e continuo qual felino estúpido
atacando seu ballet aéreo.

tão frágil a vida.
o corpo, fragmento al mare
Lorenzo
o corpo, relicário de delicadezas
inegociáveis




sexta-feira, 1 de junho de 2012

me manda qualquer coisa de palavra
qualquer dia
dentro dessa correspondência roubada.




chove
chove muito
não para de chover um
só segundo

e as vezes só quero
que evapore minha febre
que teu poço artesanal
seque.

para que então
com as unhas cheias de carne
tu me cavoques fundo
crie labirintos
cavernas
estreitas para matar tua sede.




terça-feira, 15 de maio de 2012











Arte de Hermann Nitsch



Eu fecho os olhos antes
de apagar as luzes
Apago a chama antes
de riscar o fósforo
e me rabisco todo antes
de me corrigir

Antecipar a falta nunca foi atenuar
a dor das embarcações partindo
Recolher antes da queda
pétalas das mães e dos filhos
Antecipar a falta nunca foi tentativa
frustrada de redefinir ausências
pela negação desse meu planeta
girando

Que teu avião ultrapasse a curva
Que tuas idéias evaporem
Que todos os teus cavalos corram livres
nos campos que ainda são sementes
Que eu não construa represas a tua inundação
Que meu livro termine
Que minha música se interrompa em navalha
Que meus mil e duzentos proletários ludistas
não emperrem a máquina do mundo
Que eu não cobre a vida que não é minha
nem nunca foi

Que meus amores não vivam no futuro
e que meus futuros filhos
me façam nascer de novo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012




Caminha Rua da Praia
e "oi, tu tens aquele título?"
tropeça Riachuelo
e desce a Rua da Ladeira
da tua garganta.

Uma e quinze o trabalho começando
paciente ansioso
na sala de espera
Weber, Durkheim, Deleuze
e a tua cintura se dobrando
nas minhas pernas.

Foucault, Hegel, Heidegger
a dialética, o ser e o tempo
do teu chá quase fervendo.

Lacan segunda prateleira, Sponville na primeira,
um claro enigma já dentro da minha bolsa
e o brilho dos teus olhos
anunciando os pássaros logo cedo.

Mas corre
te concentra
não perde o ponto, rapaz.
-Rita Kehl e as crônicas do quê?
perguntam enquanto eu só penso
nas manchetes do teu nome.


segunda-feira, 26 de março de 2012





fujo correndo
e te arranco um beijo
que vai durar a vida toda.







quarta-feira, 21 de março de 2012



Não é sobre isso
é o boato que escuto
na voltinha do fêmur
que se espalha chovendo
cidade inteira

Não pense que é sobre você
dizendo por dentro da terra coisas como
é minha mudança de pele, darling
wait and see
através da janela enquanto
me acertas errando.

Falsificas a arqueologia das pegadas
cobres com terra meu sítio
foges te procurando
e não me encontras na mesma sala

É tão sobre você
que sou eu
púrpura nuvem que avança
violentamente
suave.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012




curvo as pálpebras
e continuo com os olhos aqui
nestas mesmas crateras de carne
orbitando cada vez mais perto
do centro.

cortamos o tronco da Sequóia
pelo acanhamento de dobrar as pernas
não como o prelúdio do salto
ou instruções do ballet clássico
ou as aulas de aeróbica nas terças-feiras

minha partitura é o recolhimento
os tons do inverno
a expansão da cama
o vácuo nas ataduras da múmia.

quem sabe isso não seja
uma boa saída
a cada dia depositar
tal qual cofrinho de porco norte-americano
em caixinhas mínimas
um bocadinho de vida

levarei cerca de oitenta dias
me socorrendo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Arte de Caspar David Friedrich



cruzaríamos o Pacífico
não fossem as rotas alteradas
e as dorsais pontiagudas das palavras.
em arquipélagos deixaríamos nossa bagagem
não fossem as ataduras da pele
e suas esquinas imóveis

ou a pontuação ártica
de nossos chakras.

reduziríamos à estepe-superfície
todas as florestas equatoriais dos cílios
não fossem os grãos de deserto guardados
dentro dos bolsos.

enquanto isso
façamos o trabalho que não nos leva
a ponto algum do globo.
rolha flutuante
do ano novo passado.

costurar os retalhos das nuvens
em um grande lençol que cubra o tempo
enquanto o seu lobo não vem.