segunda-feira, 31 de outubro de 2011

exercício sobre a saudade n.2



não há psicologia em uma linha reta
tampouco as tecnologias da dor
dissolvidas nas pedras.
não existe o medo nas linhas retas
não existe o suor
não existe a tendência
força típica das curvas infinitas.

em uma linha reta
só existe a distância.

sábado, 29 de outubro de 2011

exercício sobre a saudade n.1


Uma chaleira ferve
e gritam todos os meus filhos
de diferentes continentes
ilhas perdidas
no pouso peregrino das aves.

A distância não é o que nos afasta.
provoca
ridiculariza
mas jamais afasta.

Retira a gordura da face lateral da saudade
e a engrossa no centro.
o trajeto da raiz.

Saudade é um passar de dedos
ao comprimento dos cabelos
em linha reta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Carta: Rei de ouro


Arte de Joan Mitchel


Eu pouco lembro das tuas roupas
tuas ideias
teu cheiro secando no varal
no qual eu me penduro
ponta cabeça

diversos atrasos
reuniões adiadas
e natais na primavera
é esse o tempo do teu corpo
reclinado em meu estômago

agora me deito
nesta rede que balança o que não tive
fico varrendo o pó dos discos
com as cerdas do teu bigode
o cobertor mais quente da minha pele

passamos os dois deitados
no tapete ao sol
conversando pelas bocas
de Bethânia e de Roberto
as conversas que dizem
ao tempo e ao espaço
que eles não habitam
a nossa casa.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011




Eu escuto Alban Berg
alarmando termômetros
eu como um Caetano
como Caio
pediu uma vez.
Faço-me valer do sopro divino
que atrapalha o caminho bobo das coisas.
Fome
a única visita
ao sobrado da infância.


domingo, 2 de outubro de 2011

Recolhimento


Arte de Joan Mitchell


Eu recolho do chão
as ligaduras do pulso
as linhas telefônicas
os fios, fios, fios
fios de cabelo eu recolho
eu recolho
os sapatos
cadarços
palmilhas
palmadas
eu recolho as palmadas
de todos os filhos
filhotes
eu recolho os filhos
das mães estéreis
histéricas
das mães que nunca
colheram nada

Eu recolho as moedas dos bolsos
a falta delas eu recolho
recolho a falta que tu fazes e fará
todos os dias
pra trás eu recolho
eu olho
e cuido para não deixar suspeita
dos passos
pássaros

Eu recolho toda colheita
da ásia menor
que meu dedo.