segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Empréstimo


Arte de Paul Klee

para Luísa,
minha infância feminina.


A casa da esquina
não foi esquecida

pela folhagem espessa
pela janela entreaberta
pelo portão enferrujado
pelo pátio marcado.

As vozes de domingo
o feriado das palavras
o sítio dos cabelos

tudo permanece
em sua forma intacta e inalcançável
resistindo ao passar
dos muitos carros na rótula.

Vejo a menina de meias compridas
trocando os pés pelas mãos
para antecipar o encontro do vento

sua pele feita de sol
iluminando todos os mistérios
da sombra de um filho único.

Ela senta-se à escada
com suas poucas manias debaixo do braço
e me olha com um olhar de céu secular.

Finjo que não estou
contorno o olhar baixando o rosto.
até porque ainda não existo em sua vida.

O que existe
é um ramo de folhas
surgindo no centro do muro de concreto

como as lembranças dela
atravessando, passo a passo,
as finas paredes do tempo.





Um comentário:

Tiger IV disse...

Gostei muito...
Beijo com amor
Pai