quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Arte de Mira Schendel



Eu não quero a partida
e os gritos de vitória
não quero a chegada
e as palmas das mãos que desconheço
Eu não quero o trajeto
atravessando os meus olhos

quero o silêncio anterior

bala deflagrada.






segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Empréstimo


Arte de Paul Klee

para Luísa,
minha infância feminina.


A casa da esquina
não foi esquecida

pela folhagem espessa
pela janela entreaberta
pelo portão enferrujado
pelo pátio marcado.

As vozes de domingo
o feriado das palavras
o sítio dos cabelos

tudo permanece
em sua forma intacta e inalcançável
resistindo ao passar
dos muitos carros na rótula.

Vejo a menina de meias compridas
trocando os pés pelas mãos
para antecipar o encontro do vento

sua pele feita de sol
iluminando todos os mistérios
da sombra de um filho único.

Ela senta-se à escada
com suas poucas manias debaixo do braço
e me olha com um olhar de céu secular.

Finjo que não estou
contorno o olhar baixando o rosto.
até porque ainda não existo em sua vida.

O que existe
é um ramo de folhas
surgindo no centro do muro de concreto

como as lembranças dela
atravessando, passo a passo,
as finas paredes do tempo.





sábado, 10 de setembro de 2011

Ponteiros dilatados.

Arte de: Edward Hopper



Estamos agora alinhando a extensão
de todos os desertos.

Quebra-se a esquina
quebra-se o parágrafo
quebram-se as pernas
em dezenas de pedaços.

Passamos a limpo a faixa de areia
das praias vazias.

O tempo enrijece a musculatura
dos anos deixados
dos segundos lavados
dos olhares falados

da roupa de cama amassada.

O tempo é quem dobra as cobertas
das camas vazias.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cerco aberto


Arte de Egon Schiele



-Eles ainda estão?
a tarde sem nenhum propósito
o dia sem nenhum juízo
pergunto e calo
pois no silêncio permaneço.

-Eles já se foram?
meu berço sitiado
lembranças acampadas com velas
curtas ao portão.
Visita que fica e dorme.

-Ainda resta alguém em mim?
subtraí as damas do tabuleiro
após matar todos os reis.

-Em qual escuro meu sorriso
te ilumina?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011



Adormecerei na trilha dos teus planos
sendo queda d'água
em momentos de gota única.

precipício do olhar precipitado.
A mordida aberta da ferida.

A vela acesa em nossa casa
jamais iluminou o pátio
onde escondemos do corpo
todos os ossos de nossos nomes.

Faz muita cócega
roer a carne que vive dentro do sonho.