quinta-feira, 7 de abril de 2011


Arte de Cy Twombly

Lorenzo Ganzo Galarça

Existe um edifício em minha vida.
A infinita construção.
A primeira viga veio com meu nascimento.

Seu terreno acompanhou
os bairros de minhas residências.
Foram três.

Seus andaimes estiveram em todos os meus aniversários
em todos os velórios de parentes
no casamento do irmão mais velho
no divórcio dos pais.

O canteiro de obras esteve presente nos dois relacionamentos.
Em cada primeiro beijo.
No cinema e sobre a ponte da cidade.

O prédio esteve comigo pelas ruas de Lisboa.
Escalamos juntos as montanhas até Sintra.
Em todas as salas dos museus italianos ele estava lá.
Em todas as praças de Madri e Barcelona.

Emergiu no centro do Mediterrâneo
enquanto meu olhar corria com o trem.

O meu primeiro fio de barba.
Debaixo do meu cobertor de lã.
Em minha primeira transa.

As minhas artérias e neurônios
Seus tijolos e as unhas de minhas mãos e pés.
Meu câncer de fígado.

O sorriso de minha irmã.

Esse prédio sempre perto.
Sufocando.

Perderei-me por cansaço
antes de bani-lo de minhas trilhas.

Os andares inconclusos
voando nas minhas paredes e ouvidos.
Na porta do quarto e do banheiro.
Nos sete buracos da minha cabeça.

Eu.
O prédio inacabado.

Eu.
O prédio cinza e enorme.

Eu.
Que sempre vivi em casas
com o porões maiores que os quartos.

Um comentário:

Cristiane Girassol disse...

Amei!!! Somos um canteiro de obras permanente e você detalhou isso com uma profundidade linda... parabéns!