segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Arte de Sigmar Polke

Lorenzo Ganzo Galarça

Nossos olhares fixos
No acordar da serpente.
O movimento preciso
E a continuidade do rastro.

O gramado jamais será órfão
De nossa doce atenção.

A infância multiplicando-se
Em cado fruto maduro.
Na extensão dos ramos
Até a lâmina das folhas.

Difícil encontrar a terra de nossos sonhos.
Onde germinaram todos os futuros
E os acasos inevitáveis.
O cartório do desejo.

Até hoje, quando visito o imenso gramado
Não sou capaz de atravessá-lo
Sem buscar uma única semente fracassada.

A semente subjetiva.
A semente pela qual adormeço
E também acordo com o suor gelado.
A semente que atrapalha minhas raízes.

O que resta é observar o campo.
Iludir-me com sua aparente monotonia.
E esperar as serpentes, é claro.
Que não passam de uma simples burocracia dos olhos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Arte de Francis Bacon

Lorenzo Ganzo Galarça

Em minha sala
dentro do apartamento
arremesso breves punhados de calcário
que vão cobrindo toda
superfície dos móveis.

Uma criança que
faz concha com as mãos
para pegar água
e atiçar o fogo.

Ofereço migalhas à vida
como se quisesse disciplinar
cada pássaro de minha terra.

Acostumá-los a pouca fome
de um quarto sem cama.

Ensiná-los a simetria exata
de um cachorro manco.

Nenhuma porta se fecha
antes de ter sido
arrombada por dentro.