terça-feira, 20 de dezembro de 2011


Arte de: Franz Kline


Não seriam inexatas as estrelas
se meus olhos fossem
máquinas de encurtar distâncias
quem diria
são o contrário
empilhadeiras de desertos
seus grãos em navios asiáticos
rabiscando rotas exatas
em minha cartografia torta.

Me acostumei a trocar de endereço
para aumentar o preço dos selos das cartas
quanto mais caros
mais vivas as cores

Mas meu desejo sempre foi
talvez por causa do medo
viver em apartamentos de um quarto
cozinha-sala e banheiro
tudo perto
sem porta dos fundos
cheio de aquarelas.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Auscultações


Arte de Miquel Barceló



Não deixei de te procurar
nas esquinas das molduras
descosturo feridas dos afrescos romanos
removo as camadas de tinta
como quem esculpe a cutícula
antigo lagarto verde ao sol

Se por acaso ignorei o interior dos ovos
é porque dentro encontraria a nação chinesa
e seus bilhões de raios de sol roubados
reclinaria cego e sem sucesso
talvez escutasse música

Também vasculho dentro dela
nos meios-tons, nas viradas de bordo abruptas
trovoadas de tonalidades
transbordamos dentro do silêncio
deixando o vento inflamar a espera
e antecipar todos os pombos-correio.

Se não pudermos lidar com o esquecimento
que nossos filhos nos esqueçam
canoas abandonadas à terceira margem
mercenários da legião estrangeira
dentaduras duras do tempo

ou quem sabe
pêssegos e romãs
despencando
cordilheira acima.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Exercício sobre a saudade n.5



Assim como o pássaro não abandona
o ninho e os filhos durante
a tempestade forte

eu não abandono meu olhar fixo
na janela que dá pra rua
a espera do teu carro
a roda da bicicleta
teu cadarço solto
amarrado nas ruas
sinal de fumaça
carta perdida
disco voador travado
na vitrola da minha boca.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Exercício sobre a saudade n.4



Eu quero todo o troco da minha vida
em balas coloridas
inverter a gravidade por momento
subir o morro com meu carrinho rolimã
rolaram as maçãs
do teu rosto em minha boca
o sol esquenta essa cidade
e me coloca a esperar a colheita
de tua estação.




terça-feira, 1 de novembro de 2011

Exercício sobre a saudade n.3


Pensei que a página em branco
restasse como reduto último
de meu encontro.
Engano.
Ela não dobra teu
leque de cores.

Ocupastes tanto a entrada como a saída
a varanda e o pátio
o porão e o sótão

Mudei a cama de lugar
durmo nos corredores.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

exercício sobre a saudade n.2



não há psicologia em uma linha reta
tampouco as tecnologias da dor
dissolvidas nas pedras.
não existe o medo nas linhas retas
não existe o suor
não existe a tendência
força típica das curvas infinitas.

em uma linha reta
só existe a distância.

sábado, 29 de outubro de 2011

exercício sobre a saudade n.1


Uma chaleira ferve
e gritam todos os meus filhos
de diferentes continentes
ilhas perdidas
no pouso peregrino das aves.

A distância não é o que nos afasta.
provoca
ridiculariza
mas jamais afasta.

Retira a gordura da face lateral da saudade
e a engrossa no centro.
o trajeto da raiz.

Saudade é um passar de dedos
ao comprimento dos cabelos
em linha reta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Carta: Rei de ouro


Arte de Joan Mitchel


Eu pouco lembro das tuas roupas
tuas ideias
teu cheiro secando no varal
no qual eu me penduro
ponta cabeça

diversos atrasos
reuniões adiadas
e natais na primavera
é esse o tempo do teu corpo
reclinado em meu estômago

agora me deito
nesta rede que balança o que não tive
fico varrendo o pó dos discos
com as cerdas do teu bigode
o cobertor mais quente da minha pele

passamos os dois deitados
no tapete ao sol
conversando pelas bocas
de Bethânia e de Roberto
as conversas que dizem
ao tempo e ao espaço
que eles não habitam
a nossa casa.



quinta-feira, 13 de outubro de 2011




Eu escuto Alban Berg
alarmando termômetros
eu como um Caetano
como Caio
pediu uma vez.
Faço-me valer do sopro divino
que atrapalha o caminho bobo das coisas.
Fome
a única visita
ao sobrado da infância.


domingo, 2 de outubro de 2011

Recolhimento


Arte de Joan Mitchell


Eu recolho do chão
as ligaduras do pulso
as linhas telefônicas
os fios, fios, fios
fios de cabelo eu recolho
eu recolho
os sapatos
cadarços
palmilhas
palmadas
eu recolho as palmadas
de todos os filhos
filhotes
eu recolho os filhos
das mães estéreis
histéricas
das mães que nunca
colheram nada

Eu recolho as moedas dos bolsos
a falta delas eu recolho
recolho a falta que tu fazes e fará
todos os dias
pra trás eu recolho
eu olho
e cuido para não deixar suspeita
dos passos
pássaros

Eu recolho toda colheita
da ásia menor
que meu dedo.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Arte de Mira Schendel



Eu não quero a partida
e os gritos de vitória
não quero a chegada
e as palmas das mãos que desconheço
Eu não quero o trajeto
atravessando os meus olhos

quero o silêncio anterior

bala deflagrada.






segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Empréstimo


Arte de Paul Klee

para Luísa,
minha infância feminina.


A casa da esquina
não foi esquecida

pela folhagem espessa
pela janela entreaberta
pelo portão enferrujado
pelo pátio marcado.

As vozes de domingo
o feriado das palavras
o sítio dos cabelos

tudo permanece
em sua forma intacta e inalcançável
resistindo ao passar
dos muitos carros na rótula.

Vejo a menina de meias compridas
trocando os pés pelas mãos
para antecipar o encontro do vento

sua pele feita de sol
iluminando todos os mistérios
da sombra de um filho único.

Ela senta-se à escada
com suas poucas manias debaixo do braço
e me olha com um olhar de céu secular.

Finjo que não estou
contorno o olhar baixando o rosto.
até porque ainda não existo em sua vida.

O que existe
é um ramo de folhas
surgindo no centro do muro de concreto

como as lembranças dela
atravessando, passo a passo,
as finas paredes do tempo.





sábado, 10 de setembro de 2011

Ponteiros dilatados.

Arte de: Edward Hopper



Estamos agora alinhando a extensão
de todos os desertos.

Quebra-se a esquina
quebra-se o parágrafo
quebram-se as pernas
em dezenas de pedaços.

Passamos a limpo a faixa de areia
das praias vazias.

O tempo enrijece a musculatura
dos anos deixados
dos segundos lavados
dos olhares falados

da roupa de cama amassada.

O tempo é quem dobra as cobertas
das camas vazias.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cerco aberto


Arte de Egon Schiele



-Eles ainda estão?
a tarde sem nenhum propósito
o dia sem nenhum juízo
pergunto e calo
pois no silêncio permaneço.

-Eles já se foram?
meu berço sitiado
lembranças acampadas com velas
curtas ao portão.
Visita que fica e dorme.

-Ainda resta alguém em mim?
subtraí as damas do tabuleiro
após matar todos os reis.

-Em qual escuro meu sorriso
te ilumina?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011



Adormecerei na trilha dos teus planos
sendo queda d'água
em momentos de gota única.

precipício do olhar precipitado.
A mordida aberta da ferida.

A vela acesa em nossa casa
jamais iluminou o pátio
onde escondemos do corpo
todos os ossos de nossos nomes.

Faz muita cócega
roer a carne que vive dentro do sonho.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

carta número um ( ou o calendário de dentro )


Arte de: Tarsila do Amaral



Uma casa estreita
como as paredes do teu ventre.
É isso o que desejo.

Duas xícaras de café aéreo
três gotas de lágrima doce
fazendo o oceano cair dos olhos
e manchar o lenço.

Atemporais atrapalhando a estação
Rimbaud estava errado quanto as férias.

Uma tarde como a que nascemos
imersos na década dos planos futuros
Reconciliar o berço errando as saídas
na estrada.

Meu olhar se fecha
em close fotográfico de partida.

Porto Alegre, 20/08/2011

com o pensamento na Guanabara.

domingo, 14 de agosto de 2011


Arte de Cy Twombly


Lembrei-me das górgonas
e suas transmutações minerais.
Isso de eternizar a passagem.

Luísa é mineral
é o contrário
o avesso por convicção.

Não desenvolve tramas com suturas
não fotografa a areia no vento
nunca guardou o oceano
dentro dos potes na cozinha.

Essência clara e sem propósito
matéria orgânica da obra prima

cílio único em queda
para dentro da vida

terça-feira, 2 de agosto de 2011


Arte de Mark Tobey



Teu braço mecânico
e meus olhos repletos de tecido
não vejo o amor distante dessa realidade
caligrafia que treme
é a folha de papel amassada em seus próprios sulcos

Talvez meus olhos é que estremeçam
diante da tua complexa engenharia

Arquiteto de objetivos
desenhaste o teto da casa curvado em abóbadas
penso que para melhor escorrer as águas

Agora eu moro no telhado
construí canoas a partir de sua forma curva

A inversão, querido
é meu meio de transporte.

quinta-feira, 23 de junho de 2011


Arte de Robert Rauschenberg.

Lorenzo Ganzo Galarça


Como dois pássaros
que se procuram e se beijam
durante o ballet aéreo

Eu te procuro dentro de mim,
fugitiva.

A colheita foi abandonada
e o continente esquecido

Mas a terra também vasculha
dentro dos ossos.

Todos os portos foram partidos.
Na estação, o trem afastou-se dos trilhos
para amanhecer o inverno.

Permanece o movimento suspenso.
Suspeito como um pássaro migrando sem rumo.
Evidente como um criminoso.

Todas as distâncias reduzidas
ao passo mínimo.

Passado ao presente.

quinta-feira, 16 de junho de 2011


Arte de Giuseppe Ajmone


Lorenzo Ganzo Galarça

Dezoito invernos atravessados
por cada fio de cabelo.
Os ossos sustentando os vértices
dos anos.

Guardamos todos os cílios
dentro do peito.
O amor não compartilha
a sorte das pedras preciosas.

Tão pouco compartilha
os manuscritos de sua fome.
Insepulto em pedra rasa e maciça
o amor despeja teu nome

em forma de cortejo divino.
Russa saraivada de lágrimas.

"Estico-me até o bico dos pássaros."
Diz a poetisa em minha
companhia de trajeto.

Enquanto eu respondo sozinho
com o vento sussurrado entre os lábios

-Estico-me a ti, tarde de junho,
para que teu silvo jamais abandone
as profundas paredes de meu olvido.


segunda-feira, 13 de junho de 2011


Arte de Salvador Dalí

Lorenzo Ganzo Galarça

Nenhuma companhia se faz de portas abertas.
A diferença única entre o roubo e o empréstimo
é a altura do portão da casa.

Espalhem cadeados, correntes, novas fechaduras.
Lacrem todas as portas, cubram de folhas as janelas.

Sejamos imperialistas!

Não me deixe ser evasivo
frente a inauguração de um inverno comprido.
Quero tecer cada centímetro de seu corpo.

Não acreditemos na falsa proposta
dos cílios abertos.
Eu quero a densa serração dos olhos azuis.
Olhar semi-serrado.

Ser invasivo, sim.
tropeçar em perguntas e
machucar o orgulho.

Agora são quatrocentos cavalos
correndo ao redor da casa

Escuto um relincho dentro do orvalho.


quinta-feira, 9 de junho de 2011


Lorenzo Ganzo Galarça

Todas as portas foram lacradas
diante dos olhos abertos.
Encostemos a janela.

O inverno não anuncia às casas
sobre a geada contida dentro
dos sapatos.

Bruta flor e fina pedra
é assim a escassez de suor na pele.
é assim o deserto invertido.

As folhas curvando-se.

Exímio voo de costas.

terça-feira, 31 de maio de 2011


Arte de Antoni Tàpies

Lorenzo Ganzo Galarça

Quarta-feira de
cinzas.
Quarenta infecções respiratórias.

É a sobra da chuva
de prata.

E dia dos mortos
ou melhor
dia do morto.

(existe a pluralidade
da experiência?)


Dia morto, tia morta.

Morto
Morta
Moço
Moça
Horta
Torta

-Aorta esguichante!




Roça queimada.

domingo, 1 de maio de 2011

Húmus


Para João Pedro Wapler
e
Nathalia Rech

Vocês.
Dois poetas bárbaros
Esperando tradução.

Vocês.
Dois córregos de fluxos contrários.

Vocês.
Um assoreamento enorme de beleza

E eu desejando com os olhos
Ser a Mata ciliar
Que acompanha estes percursos.

Lorenzo Ganzo Galarça

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Plaza España de Sevilla


Fotografia de Luísa Hervé

Lorenzo Ganzo Galarça

É um olho que vê
e outro que lágrima.

É um pé que caminha
e outro que fica.

Somos sempre duas nessa cidade.

Meu choro;
teu rio.

Meu soluço;
tua garganta em avenidas.

Isso de pertencer ao que não somos
por avesso.

Isso de somente estar presente
na vertigem do corpo.

A falta aguda
de uma esquina reta.

Teu mapa cicatrizado na pele
orienta-me pelo sangue.

quinta-feira, 7 de abril de 2011


Arte de Cy Twombly

Lorenzo Ganzo Galarça

Existe um edifício em minha vida.
A infinita construção.
A primeira viga veio com meu nascimento.

Seu terreno acompanhou
os bairros de minhas residências.
Foram três.

Seus andaimes estiveram em todos os meus aniversários
em todos os velórios de parentes
no casamento do irmão mais velho
no divórcio dos pais.

O canteiro de obras esteve presente nos dois relacionamentos.
Em cada primeiro beijo.
No cinema e sobre a ponte da cidade.

O prédio esteve comigo pelas ruas de Lisboa.
Escalamos juntos as montanhas até Sintra.
Em todas as salas dos museus italianos ele estava lá.
Em todas as praças de Madri e Barcelona.

Emergiu no centro do Mediterrâneo
enquanto meu olhar corria com o trem.

O meu primeiro fio de barba.
Debaixo do meu cobertor de lã.
Em minha primeira transa.

As minhas artérias e neurônios
Seus tijolos e as unhas de minhas mãos e pés.
Meu câncer de fígado.

O sorriso de minha irmã.

Esse prédio sempre perto.
Sufocando.

Perderei-me por cansaço
antes de bani-lo de minhas trilhas.

Os andares inconclusos
voando nas minhas paredes e ouvidos.
Na porta do quarto e do banheiro.
Nos sete buracos da minha cabeça.

Eu.
O prédio inacabado.

Eu.
O prédio cinza e enorme.

Eu.
Que sempre vivi em casas
com o porões maiores que os quartos.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Arte de Sigmar Polke

Lorenzo Ganzo Galarça

Nossos olhares fixos
No acordar da serpente.
O movimento preciso
E a continuidade do rastro.

O gramado jamais será órfão
De nossa doce atenção.

A infância multiplicando-se
Em cado fruto maduro.
Na extensão dos ramos
Até a lâmina das folhas.

Difícil encontrar a terra de nossos sonhos.
Onde germinaram todos os futuros
E os acasos inevitáveis.
O cartório do desejo.

Até hoje, quando visito o imenso gramado
Não sou capaz de atravessá-lo
Sem buscar uma única semente fracassada.

A semente subjetiva.
A semente pela qual adormeço
E também acordo com o suor gelado.
A semente que atrapalha minhas raízes.

O que resta é observar o campo.
Iludir-me com sua aparente monotonia.
E esperar as serpentes, é claro.
Que não passam de uma simples burocracia dos olhos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Arte de Francis Bacon

Lorenzo Ganzo Galarça

Em minha sala
dentro do apartamento
arremesso breves punhados de calcário
que vão cobrindo toda
superfície dos móveis.

Uma criança que
faz concha com as mãos
para pegar água
e atiçar o fogo.

Ofereço migalhas à vida
como se quisesse disciplinar
cada pássaro de minha terra.

Acostumá-los a pouca fome
de um quarto sem cama.

Ensiná-los a simetria exata
de um cachorro manco.

Nenhuma porta se fecha
antes de ter sido
arrombada por dentro.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Lorenzo Ganzo Galarça

um cachorro morto na estrada.
dois cachorros mortos na estrada.
três cachorros mortos na estrada.

e minhas mãos latindo de fome.