terça-feira, 30 de novembro de 2010


Arte de Heloísa Scheneiders

Lorenzo Ganzo Galarça


Vasculho as gavetas
descosturo teus jovens diários
alinho tua linha do tempo ao tecido de minhas roupas.

Em silêncio.
Como se aprisionasse a emoção da surpresa entre os dedos.
Como se meus dedos se tornassem notícia.

Feito lobo na estepe.

Roer os detalhes
é a minha forma de multiplicar os segredos.

sábado, 27 de novembro de 2010

Neblina seca


Arte de Antoni Tàpies


Serias os meus olhos.

Guiando-me pela a escuridão cotidiana
lavrando a terra posta
o silêncio difuso
a planta seca.

Reinventarias a cor do semáforo
o sorriso nas esquinas
o formato das nuvens
o olhar do cavalo
os dentes do vendedor triste.

Escreverias em outdoors palavras
que nunca poderiam ser ditas.
pornografias, profanações, direitos iguais.

Me contarias que o mundo esqueceu a hipocrisia
que o passo agora é longo
por isso sinto o vento em meu rosto
que agora os pássaros caminham e
que as pessoas voam.

Dirias que viu um idoso correndo atrás de bola
que um vira-lata parou o trânsito com sua fome
que um mendigo parou a vida com a sua fome.

Tudo isso se eu fosse cego.

Mas guardo comigo todos os sentidos do mundo.
Do mundo grande. Do mundo imenso
Do mundo muito maior que meus olhos.