segunda-feira, 11 de outubro de 2010




[Para Carolina,
minha companheira de bicicletas.]



De minha namorada
guardarei apenas sua boca, na qual tantas vezes já me perdi por pensar que a conhecesse,
os poemas inventados nos cantos das canções
como se a música dobrasse a esquina das palavras
a lírica eterna de dois sujeitos em busca de um mesmo verbo
o sabor exótico dos vários tipos de cerveja em sua língua
a composição exata de luz e sombra para contrastar nossas arestas mal aparadas.

De minha namorada
apenas guardarei a cor das roupas, dos cintos, dos colares, dos anéis, dos olhos, de cada fio de cabelo, das bolsas. Guardarei a cor das paredes de seu quarto, das almofadas sobre a cama, de seu cobertor preferido, de seus materiais de trabalho, de seus cadernos amorosos.

Apenas guardarei o jeito como gargalhava ao me ver dançar, a intensidade do medo com que mordia os lábios, a textura áspera dos doces para conformar o macio da boca, a falta de esmalte em suas unhas, o excesso de tinta sobre delas.

Guardarei a forma como seus olhos eram abraçados pelas pálpebras ao sorrir, o tempo de microondas de seu chá, o amargo do seu café sem açúcar, a disposição da comida no prato, seu egoísmo com as migalhas, sua fartura com os presentes.

De minha namorada
apenas guardarei a força com que segurava o lápis, quantas voltas no elástico eram precisas para prender o cabelo, os gestos das mãos, a temperatura de seu banho, a porção da toalha que escolhia para secar o rosto, a voltinha que fazia no canto dos olhos com a maquiagem para se curvar diante da vida.

Guardarei a cor do frasco de seu perfume, o cheiro natural do pescoço que mudava conforme a curvatura cervical, seu corpo em coxilha amanhecida por cavalos selvagens, sua pele de terra fértil ao passar da seca, a colheita abençoada de seus pêlos.

Guardarei para sempre o ritmo de seus batimentos cardíacos, de sua respiração apressada, de suas pálpebras em dias de choro, de seus lábios em dias de choro, da ponta de seus dedos em dias de choro.

De minha namorada
apenas guardarei as formigas infinitas
que me invadiram a casa, o bairro e a vida
Que todos os dias escalavam o meu corpo para devorar as minhas roupas, minha ponderação, meus sinais de nascença, minha falta de caráter, meu excesso de cuidado e os limites para fora de meu corpo.

sábado, 2 de outubro de 2010


Arte de Carolina Marostica


Lorenzo Ganzo Galarça


Há um casamento acontecendo no bosque.

Não se sabe o endereço
o bairro desapareceu
a trilha evaporou nas pedras
clareira não há para iluminar o atalho .

A primavera não acusa
a tempestade da vida

Ouve-se apenas o discurso do casamenteiro
a soprano italiana
o tilintar dos cálices
as risadas dos sobrinhos.

Sons guiados pela correnteza gelada
do rio que invade o ouvido.

Que união é essa
que liga os pontos cardeais do céu
para tecer estrelas?

Esse silêncio paralítico e sustenido
que assusta o sono dos peixes.

Essa promessa que não pertence aos amantes
que está além
que está acima

que só poderia ser guardada
por um bosque inexistente e flutuante.