sexta-feira, 28 de maio de 2010


Arte de: Cy Twombly

Lorenzo Ganzo Galarça


Tenho dificuldade com os espaços
Não fui disciplinado pelo útero
Minha mãe ensinou a maternidade infinita.

O silêncio não desenhou a serenidade,
Muito menos a compreenção do irreparável.
O silêncio educou-me para a pressa.

Pressa essa que atropela
pelo desejo da carona.

Minha calma não vem viúva
Traz o beijo e o carinho sobre o rosto.

A namorada transformou-se
em guardadora de rebanhos.

Organiza o campo
para que o orvalho inicie a madrugada.

terça-feira, 18 de maio de 2010


Arte de: Edward Hopper

[Eu bato o portão sem fazer alarde,
Eu pego a carteira de identidade,
Uma saideira, muita saudade,
E a leve impressão de que já vou tarde.]
Chico Buarque
Deixo a louça sobre a mesa.
Nossos nomes escritos na fome.
Os talheres excomungados do jantar.

Atravesso o corredor descalço dos teus pés.
Tua camisa roubou o colorido das paredes.

A casa escurece em luto.
A música esquiva-se dos ouvidos.
O lençol não cobre o corpo.

Nada penetra na alma
de uma pessoa vazia.

Separação é quando nos fornecemos abrigo
ao voltarmos do outro.
Lorenzo Ganzo Galarça

terça-feira, 4 de maio de 2010


Arte de: Manuel Millares

Lorenzo Ganzo Galarça



Fomos afastados dos lábios
pela acidez da saliva.

O hálito seco.
A noite ainda adormecida sobre a língua.

A linguagem áspera dos sonhos
com cheiro de palavra abandonada na garganta.
Pensamento passado.

A lembrança dela acordou exausta
como uma língua que transpira.

A manhã foi de poucas palavras.
A manhã foi de quase nenhuma vida.
E as que estavam ali não se faziam compreender.

Esquecimento é quando o soluço nasce pra dentro
e aprisiona o fato na traquéia.
Entre o corpo e a cabeça.

[Para Brenda,
que deixou o pátio e a comida.]