quarta-feira, 31 de março de 2010

Em obras


Arte de: Antoni Tàpies

Lorenzo Ganzo Galarça

Estou refazendo o caminho dos furos.
Trilhando o concreto de minhas veias,
Velhas como a tinta da parede.

Meu coração agora no ritmo das marteladas.
Uma cavalaria em retirada.
Tambores negros nas mãos de um pedreiro.

Marcha fúnebre deveria ser um canteiro de obras.
E logo a cena muda-se para o berçário.
Toda partida é também um parto.

Parede partida pintada de suor de preto.
As pedras agora mais depressa.
Pinto-me de escuro e adormeço o mundo inteiro.

Toda casa é mãe de um desabrigo.
Toda construção nasce da desconstrução.

Engenheiro civil é a pós-graduação da parteira.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sinal para ultrapassar


Arte de: Marcel Duchamp
Lorenzo Ganzo Galarça

Queremos um o espaço do outro.
Procuramos nas extremidades dos corpos
As lacunas da consciência.

O amor deseja ultrapassar a pele.
Ultrapassar os ossos.
Ultrapassar o tempo jovem de nossas vidas.

Sinto o perfume e vôo direto à essência.
Nossos carinhos não se preocupam apenas com o instante dos dedos.
Procuramos o passado, pois acreditamos em um futuro (juntos).

Meu desejo maciço de interferência.
Não isso de modificar por desgosto,
Mas para poder orgulhar-me de fazer parte.

Quero estar do teu lado (de bicicleta na chuva).
Acompanhar os teus projetos.
Contrastar tua solidão.
Datilografar tuas palavras sem propósito.

Sei que deveria pedir licença para entrar na tua vida.
Esperar na porta e tocar a campainha.
Parar de pular a janela dos olhos e de escalar a encosta dos cabelos.

Meu amor é atrapalhado.
Tropeça nos próprios cadarços e esfola o joelho.
É jovem ainda. (dois meses apenas)

Ainda está aprendendo a como caminhar
pelas ruas do teu rosto.

Atropelo, confesso,
mas meu desejo é dar carona.