quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


Arte de Giuseppe Abbati

Lorenzo Ganzo Galarça


Na consciência do mundo grande,
carrego uma Itália torta. Ponta cabeça.

Uma Itália fragmentada ainda.
Sem papas, sem Emmanuel II, sem Michelangelo,
sem Mussolini, sem nada.

Uma Itália corcunda. Despenteada.
Uma Piemonte arrasada pela neve.
Uma Veneza de submersos violinos.
A Itália de minha ausência.

A Itália que me toma o sono nas vozes de suas sopranos.
Não a Itália de Anita Ekberg e Mastroianni.
Tão pouco a Itália de Calvino e Pavese
A Itália que estravia documentos.
Que me faz estrangeiro em meu corpo.

A Itália que me faz ilha boiando no Mediterrâneo
à espera de sua derrocada.

Arte de Carolina Marostica



Meu instante de pássaro
somou-se ao teu instante de vento.
E criamos uma eternidade de vôo.



Lorenzo Ganzo Galarça

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Intimidade não é intimação


Arte de Sigmar Polke

Lorenzo Ganzo Galarça


Não me comovo com as datas de um relacionamento.
Isso de querer fingir importância.
É arrogância achar que a vida deva saber de nossa existência.

O tempo nasce dentro da gente, nunca no calendário.
O tempo do mundo sempre será o infinito
e mais dois passos pra frente.

O peso dos cílios jamais se justifica no excesso dos dias.
A roupa, para ter cheiro, precisa de rotina, precisa de sol e areia.
Dispensa o ar condicionado do restaurante.

Não desejo as frases feitas, os beijos pragmáticos, ou a objetividade dos cabelos.
Não desejo a boa postura, o comportamento, ou a destreza infalível.
Jamais quero receber um conjunto do louça de presente.

Intimidade é quebrar os copos
na pressa da sede.

terça-feira, 30 de novembro de 2010


Arte de Heloísa Scheneiders

Lorenzo Ganzo Galarça


Vasculho as gavetas
descosturo teus jovens diários
alinho tua linha do tempo ao tecido de minhas roupas.

Em silêncio.
Como se aprisionasse a emoção da surpresa entre os dedos.
Como se meus dedos se tornassem notícia.

Feito lobo na estepe.

Roer os detalhes
é a minha forma de multiplicar os segredos.

sábado, 27 de novembro de 2010

Neblina seca


Arte de Antoni Tàpies


Serias os meus olhos.

Guiando-me pela a escuridão cotidiana
lavrando a terra posta
o silêncio difuso
a planta seca.

Reinventarias a cor do semáforo
o sorriso nas esquinas
o formato das nuvens
o olhar do cavalo
os dentes do vendedor triste.

Escreverias em outdoors palavras
que nunca poderiam ser ditas.
pornografias, profanações, direitos iguais.

Me contarias que o mundo esqueceu a hipocrisia
que o passo agora é longo
por isso sinto o vento em meu rosto
que agora os pássaros caminham e
que as pessoas voam.

Dirias que viu um idoso correndo atrás de bola
que um vira-lata parou o trânsito com sua fome
que um mendigo parou a vida com a sua fome.

Tudo isso se eu fosse cego.

Mas guardo comigo todos os sentidos do mundo.
Do mundo grande. Do mundo imenso
Do mundo muito maior que meus olhos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010




[Para Carolina,
minha companheira de bicicletas.]



De minha namorada
guardarei apenas sua boca, na qual tantas vezes já me perdi por pensar que a conhecesse,
os poemas inventados nos cantos das canções
como se a música dobrasse a esquina das palavras
a lírica eterna de dois sujeitos em busca de um mesmo verbo
o sabor exótico dos vários tipos de cerveja em sua língua
a composição exata de luz e sombra para contrastar nossas arestas mal aparadas.

De minha namorada
apenas guardarei a cor das roupas, dos cintos, dos colares, dos anéis, dos olhos, de cada fio de cabelo, das bolsas. Guardarei a cor das paredes de seu quarto, das almofadas sobre a cama, de seu cobertor preferido, de seus materiais de trabalho, de seus cadernos amorosos.

Apenas guardarei o jeito como gargalhava ao me ver dançar, a intensidade do medo com que mordia os lábios, a textura áspera dos doces para conformar o macio da boca, a falta de esmalte em suas unhas, o excesso de tinta sobre delas.

Guardarei a forma como seus olhos eram abraçados pelas pálpebras ao sorrir, o tempo de microondas de seu chá, o amargo do seu café sem açúcar, a disposição da comida no prato, seu egoísmo com as migalhas, sua fartura com os presentes.

De minha namorada
apenas guardarei a força com que segurava o lápis, quantas voltas no elástico eram precisas para prender o cabelo, os gestos das mãos, a temperatura de seu banho, a porção da toalha que escolhia para secar o rosto, a voltinha que fazia no canto dos olhos com a maquiagem para se curvar diante da vida.

Guardarei a cor do frasco de seu perfume, o cheiro natural do pescoço que mudava conforme a curvatura cervical, seu corpo em coxilha amanhecida por cavalos selvagens, sua pele de terra fértil ao passar da seca, a colheita abençoada de seus pêlos.

Guardarei para sempre o ritmo de seus batimentos cardíacos, de sua respiração apressada, de suas pálpebras em dias de choro, de seus lábios em dias de choro, da ponta de seus dedos em dias de choro.

De minha namorada
apenas guardarei as formigas infinitas
que me invadiram a casa, o bairro e a vida
Que todos os dias escalavam o meu corpo para devorar as minhas roupas, minha ponderação, meus sinais de nascença, minha falta de caráter, meu excesso de cuidado e os limites para fora de meu corpo.

sábado, 2 de outubro de 2010


Arte de Carolina Marostica


Lorenzo Ganzo Galarça


Há um casamento acontecendo no bosque.

Não se sabe o endereço
o bairro desapareceu
a trilha evaporou nas pedras
clareira não há para iluminar o atalho .

A primavera não acusa
a tempestade da vida

Ouve-se apenas o discurso do casamenteiro
a soprano italiana
o tilintar dos cálices
as risadas dos sobrinhos.

Sons guiados pela correnteza gelada
do rio que invade o ouvido.

Que união é essa
que liga os pontos cardeais do céu
para tecer estrelas?

Esse silêncio paralítico e sustenido
que assusta o sono dos peixes.

Essa promessa que não pertence aos amantes
que está além
que está acima

que só poderia ser guardada
por um bosque inexistente e flutuante.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Lorenzo Ganzo Galarça

Isso tudo
livre e disperso
dentro da mesma caixinha sobre a mesa.

Não criei espaço na casa
para a desigualdade social dos objetos.
Transformo meu mundo pela escrivaninha.

Jamais soube a hierarquia
dos afetos cotidianos.

Misturo tudo
como Gil e Torquato.
Falsifico a ordem.

Meu cortador de unhas
para aparar a ponta dos lápis
E me desenhar

Como uma cutícula
contorna o dedo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010


Arte de: Van Gogh


Lorenzo Ganzo Galarça

Acompanho-me das luzes ritmadas
na Paris estelar de minha cidade

As estrelas como aviões
transportando os sonhos humanos

Na enseada desta baía infinita
deixo meu pensamento ir-se embora
com as luzes que agora vão

Apagando-se
no meu escuro

Minha vida
uma pista de pouso de partidas

quarta-feira, 4 de agosto de 2010


Arte de Antoni Tàpies

Lorenzo Ganzo Galarça

Um rio atravessou a casa
Inundando a lavoura oculta.
Crescente fértil desenhado no mapa astral dos filhos.

Escalou paredes,
Invadiu o sótão,
Mofou fotos e grafias.

As impurezas filtradas,
Tal raro brilhante em olhos garimpeiros.

A suspensão dos sonhos
Decantando na geada amanhecida.

O rio correu pelo pátio
E escondeu-se na copa da árvore maior.
Fazendo-se nuvem corriqueira.

Chovia toda vez
que as crianças iam brincar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010


Arte de: Robert Rauschenberg

Lorenzo Ganzo Galarça

Os filhos tentaram vender a casa
na repartição dos amores.
Divorciar a paternidade do telhado.

Os tijolos como lágrimas em aquarela.
As paredes da sala tal claustrofóbico útero.
Os corredores alongando-se em pista de pouso.

Empilhar as memórias,
Arrancar as raízes dos quadros,
Secar a umidade do sótão com o calor dos olhos.

O silêncio da rua
ecoando no quintal da pele.

Na hora da escritura,
faltou tinta na caneta.

A casa permaneceu
protegida pela lei
do matrimônio histórico.

quarta-feira, 16 de junho de 2010


Arte de: Maurice Denis

Lorenzo Ganzo Galarça

Nascemos sob o som de sinos destoantes.
O timbre que envelhece
conforme as pegadas dos anos.

Não disputamos os mesmos instantes.
As correntes descompassadas
dos balanços na praça.

Conhecemo-nos à sombra e sol
dos degraus da mesma escada.
Um oceano entre nossos olhos.
Uma vida inteira de atrasos.
Nosso amor é um compromisso apressado.

Embrulhamos o tempo dos ossos em segredo.
Fica o exercício entre as dobras das mãos.
O suor aprisionado nos pêlos.

Para que a vida não perceba
a antecipação do nosso encontro.

quinta-feira, 10 de junho de 2010




Arte de: Anselm Kiefer



Lorenzo Ganzo Galarça

A folhagem das árvores debruçada sobre o inverno.
Derramo a seiva do frio pelo corredor dos braços,
A estrada curva do corpo.

Meus cílios agora varrendo o horizonte.
É preciso eliminar a poeira dos olhos,
O passado adormecido nos colchões das pálpebras.

É preciso desprender-se dos galhos,
Encolher as raízes,
Economizar minerais.

Chega de viver preso à rigidez dos troncos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010


Arte de: Cy Twombly

Lorenzo Ganzo Galarça


Tenho dificuldade com os espaços
Não fui disciplinado pelo útero
Minha mãe ensinou a maternidade infinita.

O silêncio não desenhou a serenidade,
Muito menos a compreenção do irreparável.
O silêncio educou-me para a pressa.

Pressa essa que atropela
pelo desejo da carona.

Minha calma não vem viúva
Traz o beijo e o carinho sobre o rosto.

A namorada transformou-se
em guardadora de rebanhos.

Organiza o campo
para que o orvalho inicie a madrugada.

terça-feira, 18 de maio de 2010


Arte de: Edward Hopper

[Eu bato o portão sem fazer alarde,
Eu pego a carteira de identidade,
Uma saideira, muita saudade,
E a leve impressão de que já vou tarde.]
Chico Buarque
Deixo a louça sobre a mesa.
Nossos nomes escritos na fome.
Os talheres excomungados do jantar.

Atravesso o corredor descalço dos teus pés.
Tua camisa roubou o colorido das paredes.

A casa escurece em luto.
A música esquiva-se dos ouvidos.
O lençol não cobre o corpo.

Nada penetra na alma
de uma pessoa vazia.

Separação é quando nos fornecemos abrigo
ao voltarmos do outro.
Lorenzo Ganzo Galarça

terça-feira, 4 de maio de 2010


Arte de: Manuel Millares

Lorenzo Ganzo Galarça



Fomos afastados dos lábios
pela acidez da saliva.

O hálito seco.
A noite ainda adormecida sobre a língua.

A linguagem áspera dos sonhos
com cheiro de palavra abandonada na garganta.
Pensamento passado.

A lembrança dela acordou exausta
como uma língua que transpira.

A manhã foi de poucas palavras.
A manhã foi de quase nenhuma vida.
E as que estavam ali não se faziam compreender.

Esquecimento é quando o soluço nasce pra dentro
e aprisiona o fato na traquéia.
Entre o corpo e a cabeça.

[Para Brenda,
que deixou o pátio e a comida.]

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Entre Tudo


Arte de: Hélio Oiticica

Lorenzo Ganzo Galarca



Entre a palavra e a linguagem.
Entre o grito e o suspiro.
Entre o olhar e a paisagem.
Entre a mãe e seus filhos.
Entre o teu sorriso e o meu choro.
Entre a chegada e a saída.


Entre, meu amor.
Não tenha medo.

Acho que ainda não me acostumei
com o espaço das coisas.

domingo, 25 de abril de 2010


Arte de: Vincent van Gogh

Lorenzo Ganzo Galarça


Com o meu espírito de cavalo jovem
atravessei à galope as tempestades da casa.
Escovava a crina no vento dos corredores.

Tentaram me prender sob os lençóis.
Acalmar meu ímpeto vermelho.
Pode-se acorrentar o corpo; os olhos, nunca.

Trancava as pálpebras,
escondia o suor debaixo dos sonhos.
Encontrei, mais tarde,
a porta de braços abertos.
O sussurro da terra.

Guardo uma coxilha dentro de meus ossos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Interiores


Arte de: Basquiat

Lorenzo Ganzo Galarça



Os galhos da casa
arranharam as costas da infância.

Cicatrizei jantares,
recolhi memórias,
espantei assoalhos.

Vivi anos escondido dentro
dos furos dos tijolos.

Meus ouvidos
escutando apenas
o que ficava entre o vão das portas.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Em obras


Arte de: Antoni Tàpies

Lorenzo Ganzo Galarça

Estou refazendo o caminho dos furos.
Trilhando o concreto de minhas veias,
Velhas como a tinta da parede.

Meu coração agora no ritmo das marteladas.
Uma cavalaria em retirada.
Tambores negros nas mãos de um pedreiro.

Marcha fúnebre deveria ser um canteiro de obras.
E logo a cena muda-se para o berçário.
Toda partida é também um parto.

Parede partida pintada de suor de preto.
As pedras agora mais depressa.
Pinto-me de escuro e adormeço o mundo inteiro.

Toda casa é mãe de um desabrigo.
Toda construção nasce da desconstrução.

Engenheiro civil é a pós-graduação da parteira.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sinal para ultrapassar


Arte de: Marcel Duchamp
Lorenzo Ganzo Galarça

Queremos um o espaço do outro.
Procuramos nas extremidades dos corpos
As lacunas da consciência.

O amor deseja ultrapassar a pele.
Ultrapassar os ossos.
Ultrapassar o tempo jovem de nossas vidas.

Sinto o perfume e vôo direto à essência.
Nossos carinhos não se preocupam apenas com o instante dos dedos.
Procuramos o passado, pois acreditamos em um futuro (juntos).

Meu desejo maciço de interferência.
Não isso de modificar por desgosto,
Mas para poder orgulhar-me de fazer parte.

Quero estar do teu lado (de bicicleta na chuva).
Acompanhar os teus projetos.
Contrastar tua solidão.
Datilografar tuas palavras sem propósito.

Sei que deveria pedir licença para entrar na tua vida.
Esperar na porta e tocar a campainha.
Parar de pular a janela dos olhos e de escalar a encosta dos cabelos.

Meu amor é atrapalhado.
Tropeça nos próprios cadarços e esfola o joelho.
É jovem ainda. (dois meses apenas)

Ainda está aprendendo a como caminhar
pelas ruas do teu rosto.

Atropelo, confesso,
mas meu desejo é dar carona.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sobre nós


Arte de: Sigmar Polke

Lorenzo Ganzo Galarça


E sobre essa mesa
Repousa um pouco de mim
Que sente saudade,
medo (talvez)
E que ser humano.

E sobre mim (agora)
Repousa a tua imagem
Colorida de loucura,
Sede
E que me deseja.

E sobre essa noite
Repousa uma cigarra
Que desconhece a vida,
Os amores
E a Deus.

E sobre tudo isso
No mais alto do escuro
Um carrosel baila com as chamas
E incendeia nossos sonhos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Do Rápido Encontro


Arte de: Carolina Marostica

Lorenzo Ganzo Galarça



E por um breve instante dissoluto
quisera eu ter toda a fome do mundo.

Por um vadio e mísero segundo
desejei com vontade o choro dos pássaros.

O tempo voa mais que a vida.
Não sou homem de passos largos.
Aprendi a viver dentro das tuas pegadas.

O rastro é mais fiel que a trilha.

Colho-me dos galhos e abotoou as mãos.
Dobro-me como embrulho e desafio tua curiosidade.

A migalha é mais exigente
que o almoço.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Naquela Noite de Domingo


Arte de: Egon Schiele



Lorenzo Ganzo Galarça

Eu acordava
E você ainda dormia
Eu te beijava
a cintura
as pernas
os pés

Eu levantava
E você me agarrava com o olhar
Eu desejava ficar
sonhava
imaginava
interpretava

Eu amarrava os tênis
E você me abraçava
o cabelo
os ombros
o peito

Eu caminhava até a porta
E você transbordava luminosidade.

Você ia me buscar entre o quarto e o infinito
E eu não pensava em outro mundo
os quadros
os lençóis
os livros

Você me beijava com força
E eu nunca quis ser tão dedicado
aos teus olhos
ao teu corpo
ao teu sorriso

Você me carregava até a cama
E eu me afogava no desejo
no grito
no sexo
no gozo

Você sorria com o cabelo caindo sobre o rosto
E eu invejava a eternidade pela janela.