segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Irmãos de Trincheira


Arte de: Jasper Johns


Lorenzo Ganzo Galarça

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Nossa pele não tinha endereço.
Fomos herdeiros de nossos filhos.
Nossa força era o que nos mantinha vivos.

Ardemos as mesmas dores.
Não há espaço para a solidão
Quando o susto beira a finitude.

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Nossas alturas não ultrapassavam as raízes.
Revezávamos o conforto da vala.
O corpo acostumava-se com o limite.

Atrofiávamo-nos as pernas, os braços, as idéias.
Lutávamos contra a própria liberdade.
Qualquer vantagem era exilada do convívio.

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Acompanhavamo-nos de nossa própria sorte.
Eu vivia embriagado de tua sinceridade;
Tu vivias aprisionado em minha plenitude.

Vivíamos unidos pelo grito do silêncio.
Convivemos tempo de mais para não embaralhar as lembranças.
Fomos eternos companheiros.

Respirávamos...

Eu e meu irmão de trincheira.
Um o olhar do outro.
Desconstruindo nossos nomes.

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