quinta-feira, 18 de junho de 2009

Violência Travestida


Imagem de: Deviantart.com

Lorenzo Ganzo Galarça

Um caramujo corcunda
arrastava-se doído pela calçada,

carregando todo o peso
da crítica humana.

sábado, 13 de junho de 2009

Não Morei no Campo


Arte de: August Macke

Lorenzo Ganzo Galarça

Não nasci ao grito de um riacho,
ou ao choro de um grilo,
ou ao mugido de uma vaca.

O interior sempre pareceu distante das janelas do meu antigo apartamento.

Não tive carência de bucolismo.
O relincho dos carros enganou bem os ouvidos.
A poesia é cega.

Sempre gostei do cheiro do carpete.
Francamente, não posso me queixar.
O gosto do achocolatado supria bem o leite da vaca.

Não guardo nenhuma mágoa das minhas tardes na capital.
Os sentidos desconhecem idealizações.
Poesia não é sinônimo de acordar com geada nos cabelos.

Eu via as estrelas nos postes da cidade.

sábado, 6 de junho de 2009

A Poesia


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

Minha poesia não é mais abrangente
Do que uma velha caixa de sapatos.

Minhas lembranças cabem na palma da mão
E dentro da boca.

Poesia não é arte,
É necessidade fisiológica.

Escrevo como se gritasse.
O grito não é libertação, é um pedido de passagem
Para os mais obscuros interiores do corpo.

Alimento-me mais de mim mesmo
Do que jamais poderei comer neste mundo.

Conhece-se primeiro a casa
Antes de abrir a porta da frente.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Teus passos em mim


Arte de: Sigmar Polke
Lorenzo Ganzo Galarça

Confundo as dobras das camisas
Com as pregas do teu vestido.
Minha bagunça é a tua beleza.

Sinto que não me fiz presente nesse investimento.
Arrisquei pouco. Protegi-me em excessos.
Dediquei escassos discursos aos teus cabelos.

Adentravas firme na calçada, enquanto um sabiá alimentava os filhos.
A incerteza do tempo reforça as casualidades.
Mesmo assim, sempre nasces no momento certo.
Apaixonante fidelidade com a sincronia.

És um rio correndo depressa montanha acima.
A gravidade do ato machuca Deus pelas costas.