quarta-feira, 29 de abril de 2009

Em meio a tanta euforia.


Arte de: René Magritte
Lorenzo Ganzo Galarça

Todo andam tão faceiros.
Alargando os passos
e se demorando pelas ruas.

Confesso:
Não consigo acompanhar
suas euforias.

Não estou alegre.
Gozo em silêncio.
A delicadeza cobriu-me

com suas sedas.
O movimento caminha
limitado. Limitando-se.

Agrupo-me como
um bando de refugiados.
A periferia de meu corpo

abandonou a segurança.
Simpatia em demasia
desconcerta.

Os sorrisos dos outros
Constrangem minhas rugas.
Em meio a tanta felicidade,

parece que vivo uma mentira.
Ou que sou o único
que não privo minhas verdades.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Aprendizado


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

O pragmatismo
retira-nos do evento.
A frieza congela-nos
na observação.

Não me leve tão a sério.
O compreendimento
exila a criticidade.

Me escute como
uma piada.
Confunda-me com
uma provocação.

Preste atenção como
um conselho não muito sábio.
Estamos todos aprendendo

A errar com mais elegância.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Metamorfose


Arte de: Sigmar Polke
Lorenzo Ganzo Galarça

Aumento o volume
dos livros com as
dobras nas orelhas.

A intervenção
é uma aceitação contrariada.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Higiênico.


Arte de: Paul Klee
Lorenzo Ganzo Galarça

Escovar os dentes?

E perder o gosto da sobremesa?
E esquecer o sabor do beijo dela?
E anestesiar o amargo da verdade?

Prefiro dizer adeus aos dentes a abandonar uma lembrança.
Umedeço panos com as lágrimas.
Toda faxina é também uma mudança.

domingo, 5 de abril de 2009

Nossa avó.


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

A vó cobria-nos
com pesados panos.
Cobertores quentes e felpudos
nos aqueciam das frias paredes de tijolos.

Ela nos tapava aos poucos.
Em camadas.
Como um doce de mil folhas.
Minha vó recheou a infância dos netos.

Dispunha nossos corpos
pelos espaços do quarto.
Brincava de arrumar as camas
como se fossem caixinhas de fósforos.

A casa dos meus avós
tinha o cheiro das minhas primas.
Guardo as lembranças nossas.
Era ótimo ser o caçula.

Sempre pude invejar
o crescimento de quem amei.

sábado, 4 de abril de 2009

Meu filho é lindo.


Imagem: Deviantart.com
Lorenzo Ganzo Galarça

O suor do filho
Regava a sua cabeça.
O cabelo absorvia os minerais.
Pingos escorriam pela testa,

Confundindo-se com as lágrimas.
Os homens só envelhecem até a paternidade.
Os pais tornam-se crianças para brincarem com os filhos.
É preciso crescer para poder encolher-se.

Toda ida supõe uma volta.