segunda-feira, 30 de março de 2009

Dedicação.


Arte de: Modigliani

Lorenzo Ganzo Galarça

A facilidade dificulta.
A proximidade distancia.

O Amor exige esforço. Dedicação em dobrar as roupas de cama. A preguiça apaga as velas. Faz dormir os pêlos do rosto. Desanima entusiasmo.

O matrimônio é desafio. Promessa de ventura nas extremidades dos corpos. Intensidade na serenidade. Dividir a vida com alguém, não significa repartir um fardo; mas sim, compartilhar o lanche do recreio, sem subtrair a importância do sabor pela quantidade.

A eternidade remete ao presente. Não é possível o além da curva sem a curva. É o chão que pisamos que se tornará a estrada no horizonte.

Amor não é estado civil.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sentimentos não são pessoais.


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

Não reprendo os poemas que vão embora.
Soltos no ar.
Deixo que desprendam-se de
Minha consciência.

Eles vão com o vento.
Permito. Não me importo.
Também vieram a mim desta forma.
Seria gula o aprisionamento.

Se fosse possível, jogaria
Mais palavras ao vento.
Mais versos e prosas.
Para que encontrassem teus ouvidos.

Sentimentos não são pessoais.

domingo, 22 de março de 2009

No Final.


Arte de: Antoni Tàpies
Lorenzo Ganzo Galarça

Ponho pijama para dormir.
Preparo-me para o fim.
O término de um dia
É o começo do que virá.

Fico de banho tomado para os sonhos.
Penteio, cuidadosamente, os fios de cabelo.
Anseio a retomada.
As cobertas aquecem as causas.

Perdoam. Aceitam as lamentações.
A cama reconcilia
O choro dos filhos.
E ficam as manchas nos lençóis.

A cama abriga o novo.
Interliga o começo e o final.
Túnel do Tempo.

Estremeço frente ao intransponível.
A vida eterna nunca fez meu tipo.
Acredito na finitude para semear o futuro.
Guardo a fé do nascimento.

Folhas mortas adubam a terra úmida.
Morrer é uma prova de que se viveu.
O fim pode não ser justo, mas é sincero.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Desde que seja verdadeiro.


Arte de: René Magritte
Lorenzo Ganzo Galarça

Não espalharei pétalas vermelhas sobre nossa cama.
Uma rosa não é verdadeira sem espinhos.
Não serei capaz de viver uma mentira debaixo dos lençóis.

Pobres de espírito os que nunca
Sangraram de Amor.
Intimidade tem espinhos.

A honestidade não vem delicada,
Aparando as pontas e
Se dobrando em gestos.

Na cama se compartilha a ferida.
A dor de um só
Povoa a alma do casal.

Não te prometo Morangos.
O que te ofereço são os ossos,
A pele. Os ouvidos atentos.

No Amor nada é dissecado.
De que servem as flores se não tiverem raízes
Para nascer novamente em teu corpo?

Talvez, a coisa mais delicada que se possa fazer
Seja se desnudar em essências.
Amassar uma folha para sentir o aroma.

Que o Amor não seja belo,
Mas que seja verdadeiro.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Guio de olhos vendados


Arte de: René Magritte
Lorenzo Ganzo Galarça

Me desculpe, meu amor,
Se te assusto com a minha sinceridade.
Desaprendi os valores primeiros.

Reconheço a indelicadeza do gesto.
O Amor não usa guardanapos.
Não retira os restos de comida

Do canto dos lábios.
Não sacio com os beijos.
Tua mão não existe sem uma aliança.

Os dedos finos pedem compromisso.
Proteção contra a própria pele,
Afago que envolve.

Lembro dos dias que não vivemos.
Enxergo uma vida inteira nos instantes,
Leite em teus seios,

A promessa do matrimônio no sorriso. O segredo dos dentes.
Teus cabelos tecem os lençóis
Que aquecerão nossos filhos.

Dentro do teu corpo, os momentos são tão intensos
Que busco lembranças mornas no futuro.
Tranco as portas e descanso no desejo.

Te abraçar é como passar a arrebentação do mar.
O silêncio me ensurdece...
Paz de espírito.

Remo junto a correteza
Para poder me deixar levar por ti.
Adormeço em tua serenidade.

Guio de olhos vendados.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cadernos velhos ( ou, Novo Ano).


Arte de: Antoni Tàpies
Lorenzo Ganzo Galarça

Retirei as folhas dos caderno dos armários.
Dobrei as mangas das camisas.
Fechei as tuas cartas.

Disse adeus as manchas dos casacos,
Aos furos das calças nos joelhos.
Queimei guardanapos.

Tirei o pó dos álbuns de fotos,
Dos cartões de aniversário.
Recolhi os cílios com as mãos.

Apreciei os desenhos das primas,
Juntei as pontas de lápis das gavetas.
Passei pano úmido em minha vida.

-Vá com calma.
A mudança se dá aos poucos.
Choro ao aspirar o chão do quarto,

Vendo a poeira fugindo pelo céu.
Nunca foi tão incrível uma revoada de pássaros.
Crescer machuca as pernas.

Amadurecer não é, necessariamente,
Desprender-se dos galhos.