terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Febríl




Lorenzo Ganzo Galarça

Abandonei a corda em riste.
O silêncio do poço
ecoando em minha garganta.

Segurava o pulso gélido,
acompanhando a sinfonia do sangue.
Os violinos do corpo.

Veio-me aquele desejo
tão conhecido de exilar o vento.

Sinto medo da pronúncia.
A chama ascesa em minha boca
carbonizava toda linguagem não-nascida.

Por Deus,
meu silêncio ferve.
Estou adoecendo termômetros.

Atire-me no mar.
Meu sonho é conhecer
a profundidade do desejo.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Duas Solidões


Arte de : Marc Chagall


Lorenzo Ganzo Galarça

Ninguém nos apresentou.
Carecemos de intérpretes.
Tua boca e o meu silêncio.

Falta assunto, sobra interesse.
Como esperar a vida inteira
por um passado recente.

Transbordamos.
Não fomos solícitos com os dias.
Arranco o fruto antes do tempo.

Pressa é necessidade.
Não há como sentir a vida
sem o apreço pelo instante.

Sabe, tenho dúvidas sobre o caminho.
Parece-me novo, recém trilhado.
O chão e a areia quente.

A folhagem descoberta.
A umidade do rio
flutuando em minha mente.

Acredito que ainda não aprendi
a me dar o espaço para as pernas.

Pois sinto-me estranho.
Confortável.
Encolhido dentro do teu peito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sinais


Arte de: Toulouse-Lautrec


Lorenzo Ganzo Galaraça

Fui te acordar pela manhã
Com o meu beijo quente de cobertor.
Com as minhas estrelas guardadas nos olhos.

Reviraste os ombros nus,
Os seios e os lábios.

Te ofereci minha companhia
E me retribuíste com tua solidão.
Com o teu silêncio de árvore.

Não tenho sequer chances
Contra teu próprio acompanhamento.

Mas me criaste dentro de ti.
Faço parte do teu silêncio exigente.
Do teu desespero comportado.

Reconheço a gratidão,
Deito-me sobre teu corpo,
E adormeço para conhecer-te.

domingo, 1 de novembro de 2009

Quando Esqueço



Arte de: Renoir

Lorenzo Ganzo Galarça

Não sei mais o quanto te desejo.
Se é encanto o que encontro
Ou se é descontentamento.

Não acho justo vestir-me da tua pele.
Transpirar os teus sorrisos
E ser também tuas manias.

Ser o outro é impossível
Quando não sou homem para ser eu mesmo.
A paixão vira estratégia.

Não és uma atalho para a saída.
Uma janela redonda, ou um mesmo um trago forte.
És o recreio em minha boca.

Meu descanso.
Férias em outro continente.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Galeão-Salgado Filho.


Imagem modificada com Photoshop

Lorenzo Ganzo Galarça

Quase nunca levo vantagem
Nas negociações cotidianas.

Deixo de lado as ponderações.
Esqueço gráficos e estatísticas.

No avião, faço pouso seguro em terra firme
E levo a turbulência pra casa
Voando em meu ouvido.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sob a Tutela do Olhar


Arte de: Robert Rauschenberg


Lorenzo Ganzo Galarça

Lá estava ele, mais uma vez.

A barriga rente ao queixo
Servindo de apoio aos ansiosos cotovelos.
Os cabelos respeitando a solidão da careca.
Seu desespero comportado entre a palma das mãos.

Assistindo-me por entre a selva
Das sombrancelhas.
Sobre o denso manguezal dos bigodes.

Posso jurar que seu olhar transmitia eternidade.

-Conta-me o tempo. Fui rápido?

Perguntava antes o compromisso,
Que a curiosidade.

-Ainda podes mais!

-Aguenta, respira, relaxa. Aguenta, respira, relaxa.

A idade te impossibilita.
As pernas tremem,
Os pulmões suspiram.

Mas, correste em meus olhos.
Tropeçando em minha juventude.
Em choro,

Honravas o Nascimento.

Treinaste-me
Para a vida.

Agora a vida treina-me
Para viver-te.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Irmãos de Trincheira


Arte de: Jasper Johns


Lorenzo Ganzo Galarça

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Nossa pele não tinha endereço.
Fomos herdeiros de nossos filhos.
Nossa força era o que nos mantinha vivos.

Ardemos as mesmas dores.
Não há espaço para a solidão
Quando o susto beira a finitude.

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Nossas alturas não ultrapassavam as raízes.
Revezávamos o conforto da vala.
O corpo acostumava-se com o limite.

Atrofiávamo-nos as pernas, os braços, as idéias.
Lutávamos contra a própria liberdade.
Qualquer vantagem era exilada do convívio.

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Acompanhavamo-nos de nossa própria sorte.
Eu vivia embriagado de tua sinceridade;
Tu vivias aprisionado em minha plenitude.

Vivíamos unidos pelo grito do silêncio.
Convivemos tempo de mais para não embaralhar as lembranças.
Fomos eternos companheiros.

Respirávamos...

Eu e meu irmão de trincheira.
Um o olhar do outro.
Desconstruindo nossos nomes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Torna-te atento




Lorenzo Ganzo Galarça

Adormeci durante teu discurso.
Vieste com o material pronto.
Palavras equilibrando-se na língua.

Disparas o verbo sem a piedade do tom.
Exilaste a consciência do ato.
Tuas ações são solitárias.

Por que falas da boca pra fora,
Quando deverias consumir-te
Nos próprios pensamentos?

Pré-aqueça a palavra.
Tempere a gosto a construção.
Somos todos artistas dos nossos desejos.

Não tenho compromisso
Com tua falta de cuidado.
Aliás, a dispenso.

A fisionomia abandona a mentira.
O que a mente transpõem,
O corpo cicatriza.

Torna-te atento,
Ou a carne fará de ti
Mero complemento.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Não pergunte.


Arte de: Iberê Camargo


Lorenzo Ganzo Galarça

Não me perguntes
Em que gaveta
Ficam os talheres.

Não se prenda à imagem
De um mero convidado.
Invente-se. Transforme-se.

Se tivestes a coragem para romper
O solado da casa,
Encha-a com teu suspiro.

O despreparo é o abraço das palavras.

Mude as louças de lugar,
Esconda o copo dentro do armário,
A almofada atrás do braço.

Não me perguntes tanto os caminhos.

Logo estarás anotando
Os atalhos do corpo
Na ponta dos cílios.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Caixa Preta


Arte de: Robert Rauschenberg

Lorenzo Ganzo Galarça

Na prateleira, debaixo dos livros,
Guardo uma caixa de sapatos.

É um quarto dentro de meu quarto.
Um depósito de choros, gritos,
Risadas e dentes de leite.
E cartas. Muitas malditas cartas.

Demorei um ano inteiro para
Organizar o material.

Um ano para organizar
Uma eternidade.
Uma pequena caixa
Para caber o mundo.

Havia esquecido-me dela.
Traguei um susto quando a vi.

Agora, depois de
Tantas novas idéias,
Tantas novas palavras,
Tantos novos amores,

De que força me utilizo
Para resgatar minhas lembranças?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Violência Travestida


Imagem de: Deviantart.com

Lorenzo Ganzo Galarça

Um caramujo corcunda
arrastava-se doído pela calçada,

carregando todo o peso
da crítica humana.

sábado, 13 de junho de 2009

Não Morei no Campo


Arte de: August Macke

Lorenzo Ganzo Galarça

Não nasci ao grito de um riacho,
ou ao choro de um grilo,
ou ao mugido de uma vaca.

O interior sempre pareceu distante das janelas do meu antigo apartamento.

Não tive carência de bucolismo.
O relincho dos carros enganou bem os ouvidos.
A poesia é cega.

Sempre gostei do cheiro do carpete.
Francamente, não posso me queixar.
O gosto do achocolatado supria bem o leite da vaca.

Não guardo nenhuma mágoa das minhas tardes na capital.
Os sentidos desconhecem idealizações.
Poesia não é sinônimo de acordar com geada nos cabelos.

Eu via as estrelas nos postes da cidade.

sábado, 6 de junho de 2009

A Poesia


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

Minha poesia não é mais abrangente
Do que uma velha caixa de sapatos.

Minhas lembranças cabem na palma da mão
E dentro da boca.

Poesia não é arte,
É necessidade fisiológica.

Escrevo como se gritasse.
O grito não é libertação, é um pedido de passagem
Para os mais obscuros interiores do corpo.

Alimento-me mais de mim mesmo
Do que jamais poderei comer neste mundo.

Conhece-se primeiro a casa
Antes de abrir a porta da frente.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Teus passos em mim


Arte de: Sigmar Polke
Lorenzo Ganzo Galarça

Confundo as dobras das camisas
Com as pregas do teu vestido.
Minha bagunça é a tua beleza.

Sinto que não me fiz presente nesse investimento.
Arrisquei pouco. Protegi-me em excessos.
Dediquei escassos discursos aos teus cabelos.

Adentravas firme na calçada, enquanto um sabiá alimentava os filhos.
A incerteza do tempo reforça as casualidades.
Mesmo assim, sempre nasces no momento certo.
Apaixonante fidelidade com a sincronia.

És um rio correndo depressa montanha acima.
A gravidade do ato machuca Deus pelas costas.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Minha Segunda Primeira Carta



Arte de: Juan Miró

Lorenzo Ganzo Galarça

Te esperei em cada olhar.
Amanheci com o sereno do prado
Criando verdadeiros lagos em tuas pálpebras.

Te esperei, minha doce amiga.
Esperei que teu Amor abandonasse o meu.
Sem nenhuma esperança no passado,

Hoje te digo:

- Foi preciso.

Somente assim, sozinhos nós dois,
Poderemos voltar a habitar um o corpo do outro.
Nutridos com a delicadeza do descompromisso.

Foi necessário o esquecimento para poder viver-te novamente.
A presença é a consequência da ausência.

Im(perceptível)


Arte de: Edward Hopper

Lorenzo Ganzo Galarça

Amanheci à procura
do teu rosto.

Esqueci-me de que havias
partido à noite.

Tua presença permanece,
mesmo após a despedida.

O desejo ultrapasou correndo
os limites da lembrança.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Em meio a tanta euforia.


Arte de: René Magritte
Lorenzo Ganzo Galarça

Todo andam tão faceiros.
Alargando os passos
e se demorando pelas ruas.

Confesso:
Não consigo acompanhar
suas euforias.

Não estou alegre.
Gozo em silêncio.
A delicadeza cobriu-me

com suas sedas.
O movimento caminha
limitado. Limitando-se.

Agrupo-me como
um bando de refugiados.
A periferia de meu corpo

abandonou a segurança.
Simpatia em demasia
desconcerta.

Os sorrisos dos outros
Constrangem minhas rugas.
Em meio a tanta felicidade,

parece que vivo uma mentira.
Ou que sou o único
que não privo minhas verdades.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Aprendizado


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

O pragmatismo
retira-nos do evento.
A frieza congela-nos
na observação.

Não me leve tão a sério.
O compreendimento
exila a criticidade.

Me escute como
uma piada.
Confunda-me com
uma provocação.

Preste atenção como
um conselho não muito sábio.
Estamos todos aprendendo

A errar com mais elegância.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Metamorfose


Arte de: Sigmar Polke
Lorenzo Ganzo Galarça

Aumento o volume
dos livros com as
dobras nas orelhas.

A intervenção
é uma aceitação contrariada.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Higiênico.


Arte de: Paul Klee
Lorenzo Ganzo Galarça

Escovar os dentes?

E perder o gosto da sobremesa?
E esquecer o sabor do beijo dela?
E anestesiar o amargo da verdade?

Prefiro dizer adeus aos dentes a abandonar uma lembrança.
Umedeço panos com as lágrimas.
Toda faxina é também uma mudança.

domingo, 5 de abril de 2009

Nossa avó.


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

A vó cobria-nos
com pesados panos.
Cobertores quentes e felpudos
nos aqueciam das frias paredes de tijolos.

Ela nos tapava aos poucos.
Em camadas.
Como um doce de mil folhas.
Minha vó recheou a infância dos netos.

Dispunha nossos corpos
pelos espaços do quarto.
Brincava de arrumar as camas
como se fossem caixinhas de fósforos.

A casa dos meus avós
tinha o cheiro das minhas primas.
Guardo as lembranças nossas.
Era ótimo ser o caçula.

Sempre pude invejar
o crescimento de quem amei.

sábado, 4 de abril de 2009

Meu filho é lindo.


Imagem: Deviantart.com
Lorenzo Ganzo Galarça

O suor do filho
Regava a sua cabeça.
O cabelo absorvia os minerais.
Pingos escorriam pela testa,

Confundindo-se com as lágrimas.
Os homens só envelhecem até a paternidade.
Os pais tornam-se crianças para brincarem com os filhos.
É preciso crescer para poder encolher-se.

Toda ida supõe uma volta.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dedicação.


Arte de: Modigliani

Lorenzo Ganzo Galarça

A facilidade dificulta.
A proximidade distancia.

O Amor exige esforço. Dedicação em dobrar as roupas de cama. A preguiça apaga as velas. Faz dormir os pêlos do rosto. Desanima entusiasmo.

O matrimônio é desafio. Promessa de ventura nas extremidades dos corpos. Intensidade na serenidade. Dividir a vida com alguém, não significa repartir um fardo; mas sim, compartilhar o lanche do recreio, sem subtrair a importância do sabor pela quantidade.

A eternidade remete ao presente. Não é possível o além da curva sem a curva. É o chão que pisamos que se tornará a estrada no horizonte.

Amor não é estado civil.

terça-feira, 24 de março de 2009

Sentimentos não são pessoais.


Arte de: Robert Rauschenberg
Lorenzo Ganzo Galarça

Não reprendo os poemas que vão embora.
Soltos no ar.
Deixo que desprendam-se de
Minha consciência.

Eles vão com o vento.
Permito. Não me importo.
Também vieram a mim desta forma.
Seria gula o aprisionamento.

Se fosse possível, jogaria
Mais palavras ao vento.
Mais versos e prosas.
Para que encontrassem teus ouvidos.

Sentimentos não são pessoais.

domingo, 22 de março de 2009

No Final.


Arte de: Antoni Tàpies
Lorenzo Ganzo Galarça

Ponho pijama para dormir.
Preparo-me para o fim.
O término de um dia
É o começo do que virá.

Fico de banho tomado para os sonhos.
Penteio, cuidadosamente, os fios de cabelo.
Anseio a retomada.
As cobertas aquecem as causas.

Perdoam. Aceitam as lamentações.
A cama reconcilia
O choro dos filhos.
E ficam as manchas nos lençóis.

A cama abriga o novo.
Interliga o começo e o final.
Túnel do Tempo.

Estremeço frente ao intransponível.
A vida eterna nunca fez meu tipo.
Acredito na finitude para semear o futuro.
Guardo a fé do nascimento.

Folhas mortas adubam a terra úmida.
Morrer é uma prova de que se viveu.
O fim pode não ser justo, mas é sincero.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Desde que seja verdadeiro.


Arte de: René Magritte
Lorenzo Ganzo Galarça

Não espalharei pétalas vermelhas sobre nossa cama.
Uma rosa não é verdadeira sem espinhos.
Não serei capaz de viver uma mentira debaixo dos lençóis.

Pobres de espírito os que nunca
Sangraram de Amor.
Intimidade tem espinhos.

A honestidade não vem delicada,
Aparando as pontas e
Se dobrando em gestos.

Na cama se compartilha a ferida.
A dor de um só
Povoa a alma do casal.

Não te prometo Morangos.
O que te ofereço são os ossos,
A pele. Os ouvidos atentos.

No Amor nada é dissecado.
De que servem as flores se não tiverem raízes
Para nascer novamente em teu corpo?

Talvez, a coisa mais delicada que se possa fazer
Seja se desnudar em essências.
Amassar uma folha para sentir o aroma.

Que o Amor não seja belo,
Mas que seja verdadeiro.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Guio de olhos vendados


Arte de: René Magritte
Lorenzo Ganzo Galarça

Me desculpe, meu amor,
Se te assusto com a minha sinceridade.
Desaprendi os valores primeiros.

Reconheço a indelicadeza do gesto.
O Amor não usa guardanapos.
Não retira os restos de comida

Do canto dos lábios.
Não sacio com os beijos.
Tua mão não existe sem uma aliança.

Os dedos finos pedem compromisso.
Proteção contra a própria pele,
Afago que envolve.

Lembro dos dias que não vivemos.
Enxergo uma vida inteira nos instantes,
Leite em teus seios,

A promessa do matrimônio no sorriso. O segredo dos dentes.
Teus cabelos tecem os lençóis
Que aquecerão nossos filhos.

Dentro do teu corpo, os momentos são tão intensos
Que busco lembranças mornas no futuro.
Tranco as portas e descanso no desejo.

Te abraçar é como passar a arrebentação do mar.
O silêncio me ensurdece...
Paz de espírito.

Remo junto a correteza
Para poder me deixar levar por ti.
Adormeço em tua serenidade.

Guio de olhos vendados.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cadernos velhos ( ou, Novo Ano).


Arte de: Antoni Tàpies
Lorenzo Ganzo Galarça

Retirei as folhas dos caderno dos armários.
Dobrei as mangas das camisas.
Fechei as tuas cartas.

Disse adeus as manchas dos casacos,
Aos furos das calças nos joelhos.
Queimei guardanapos.

Tirei o pó dos álbuns de fotos,
Dos cartões de aniversário.
Recolhi os cílios com as mãos.

Apreciei os desenhos das primas,
Juntei as pontas de lápis das gavetas.
Passei pano úmido em minha vida.

-Vá com calma.
A mudança se dá aos poucos.
Choro ao aspirar o chão do quarto,

Vendo a poeira fugindo pelo céu.
Nunca foi tão incrível uma revoada de pássaros.
Crescer machuca as pernas.

Amadurecer não é, necessariamente,
Desprender-se dos galhos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os abraços abandonam os braços.


Arte de: Man Ray
Lorenzo Ganzo Galarça

Te emprestei um livro.
Não para que tivesse lido,
Mas para que fosse devolvido.

Pedi meu fundo de garantia.
Plantei uma semente em teu corpo
Que se rega à beijos no pescoço.

O Verão está dando as costas.
Quem sabe a Primavera?
Um Encontro, ao menos, nos resta.

O sorriso desenhado
E o livro debaixo do braço, junto ao peito.
-Obrigado, mas não deu.

-Não a de que.
Só não esqueça que o que realmente levaste contigo
Não poderá ser devolvido.

Uma parte de mim foi embora com você.
Uma parte que teme voltar
Por não saber como se curar.

Os abraços abandonam os braços quando encontram o Amor.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sintonia.


Imagem: Deviantart.com
Lorenzo Ganzo Galarça

Os gols mais bonitos que fiz foram de pés descalços.
As chuteiras pesavam na responsabilidade de marcar.
O descompromisso dos dedos com os objetivos levavam-me mais longe.

As travas da chuteira travavam-me o movimento, enquanto
As solas dos pés iam beijando o gramado.
Exímeis malabaristas de Bergamotas.

A despreocupação não gera desprezo, gera atenção.
Os pés, livres de nós e laços, jogavam futebol por conta própria.
A liberdade que dei ao meu corpo é retribuída a mim como compreensão.

Meus pés me entendem quando não quero jogar bola,
Minha sobrancelha coça quando fico desconfortável,
Meu olho inunda-se quando me apaixono.

Meu membros fazem parte das reuniões sindicalistas.
Os olhos acompanham a curvatura dos ombros
No desejo de um carinho eminente.

Não ocupo a cama inteira, quando durmo.
Sei que outro lado sempre pode amanhecer mais pesado.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Deixa o verão.


Arte de: Eliane Guedes

Lorenzo Ganzo Galarça

Tu estás longe.
Não estranho que a poesia não me bata à porta.
Verão é época de se Amar, e não de falar de Amor.

As palavras estão mudas.
Meus braços são cordas abafadas.
Nem o violão me ilude com suas curvas.

O mar engoliu a ponta dos dedos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Luz do Corredor


Arte de: Paul Klee

Lorenzo Ganzo Galarça

Fingia que dormia

Para ter um encontro à luz de velas com o sono.

Fingia que dormia

Para não me entregar tão facilmente a mim.

Fingia que dormia

Para sentir meu cheiro no travesseiro.

Fingia que dormia

Para acordar mais próximo.

Fingia que dormia

Para escutar o beijo de boa noite dos pais. Aquele que vem mesmo depois da ausência.

Fingia que dormia

Para correr o risco de não ser beijado.

Fingia que dormia

Para poder ser mais atento aos carinhos.

Fingia que dormia

Para estar cada vez mais acordado.

Finjo que durmo

Para poder me dar boa noite.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Esses novos tempos.


Arte de: Eliane Guedes

Lorenzo Ganzo Galarça

Tu pedias a bebida, por causa da idade, e eu embriagava-me em tua saliva.
Teu tempo me distância do corpo.
Sinto como se não te merecesse.

Nosso Amor não terá início, pois, duvidarei do começo.
Te admiro em demasia, como nunca havia acontecido.
Sempre girei ao redor do meu próprio eixo.

Hoje, contigo, começo a me aventurar em outras órbitas.
Arrisco a quantidade de gasolina do tanque.
Sei que posso nunca mais voltar.

Ainda faço parte do que tu deixaste para trás.
Já não suporto meu palco de couvert de bar.
Minhas pernas cresceram, e estou correndo depressa.

A burocracia do crescimento é frustrante.
Mas o contexto não me tira de casa.
O que é meu está guardado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Conquista.



Lorenzo Ganzo Galarça

Foram apenas três nomes.
Um conjunto de letras de mãos dadas.
Unidas para não serem varridas do papel.

Um choque elétrico disfarçado de gramática.
Três nomes foram o suficiente para
Me derrubar do cavalo.

Seguidos de uma palavra:
-Medicina.
O descontrole está posto.

O coração desrespeita a serenidade do quarto.
Os pés gritam socorro dentro dos tênis.
A língua teima ao ficar dentro da boca.

Peguei o telefone e disparei a emoção
Por já não suporta-lá sozinho.
A felicidade inundou-me por completo.

Aprendi a viver-me nos outros.
Sou um ladrão de emoções.
O crime não será julgado.

Agradeço a vocês
Por não serem egoístas com o coração.
Tua felicidade não mais te pertençe.


Texto em homenagem à Daniele, minha queridíssima amiga.
Medicina-UFRGS

sábado, 3 de janeiro de 2009

Acabaram as provas.


Arte de: Henri Toulouse-Lautrec

Lorenzo Ganzo Galarça


Confiro a umidade da superfície

Para não manchar

Meus cuidados.


Não deixarei as cartas

Jogadas no balcão da cozinha.

Os pingos de café


Ainda não secaram.

Minha ansiedade teve pressa

Ao arrumar a mesa.


Tu deixaste o portão aberto

E os cachorros fugiram.

Seria tua saída de emergência.


Teu anel engana os olhos.

A espessura da aliança se mede

Na capacidade de Amar.


Meu anel diluiu-se nos dedos.

O corpo virou testemunha do

Crime de te Amar por inteiro.


Não precisas mais de

Uma constante prova de afeto, não.

O ano letivo terminou.


Reprovaste mais uma vez

Em pintar dentro dos contornos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Guarda para o final.


Arte de: Iberê Camargo

Lorenzo Ganzo Galarça.

Fique em silêncio.
Não te gabes.
Deixe que eu descubra

Tuas habilidades.
Não troques o doce
Do desconhecido

Pelo amargo da arrogância.
O usual é ácido.
Já molhado de outras bocas.

Silencia o corpo.
Nina em berço
Tua ansiedade.

O equilíbrio dá-se
Após as ondas turbulentas.
A paz nasce da guerra,

Assim como a reconciliação
Após a separação.
Poupa-me da tua insegurança.

Amo-te.
Não preciso que re-afirmes teu valor.
Ele está dado em teus atos.

Guarda-te para o final.
A morte será uma surpresa.