quinta-feira, 23 de outubro de 2008

E a fala conforta.


Foto: Deviantart.com

Constantemente buscamos o porto seguro na boca quente, dos outros.
A fala, quando bem-vinda, nos abraça e nos acolhe.
Ela é boa por natureza.
Correta para si.

Tem vida própria.
Não obedece a boca que a fala.
Ela é intrusa.
Nos flagra, nos desnuda.
Nos entrega.

Como tem de ser a vida.
De entrega.
Entregar-se é
Acolher o que há de pior em nós
Acolher tudo em nós.
Dar-se a vida.
De braços abertos, como o corredor que vence a corrida.

Dar-se a vida não quer dizer submeter-se.
Pelo contrario, quer dizer ser mais flexível,
Aceitar mais,
Olhar com mais atenção,
Ter amor aos fatos.


Lorenzo Ganzo Galarça

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cegueria

Se algum dia eu ficar cego.
Quero que tenha sido de tanto olhar para a lua
E esquecer-me no seu brilho.
Para nunca mais voltar.
O mesmo de quando partí.


Lorenzo Ganzo Galarça.

sábado, 11 de outubro de 2008

Alma Imoral

Minha imoralidade
É imortal.
Transcende o real.
Trai a tradição.
Conforta-se em si.

Desobedece o limite de espaço do corpo .
Não sai boca afora em labaredas.
Livre,
Rodeia-me por inteiro.

Estar em contato com a alma
Não é deixar o corpo de lado.
Desaprender os sentidos,
Voltar as raízes.

É submergir no agora.
Aguçar os sentidos.
Pisar com mais força.
Beijar a ferida.

Retiro não é refugio.
Não se procura a alma para proteger-se,
Defender-se do mundo.
A alma não é nosso escudo.
Ela é nossa espada e nossa bravura.

Estado constante
Não é o bastante.
Para abastecer
Um corpo mutante
Que precisa desobedecer.


Lorenzo Ganzo Galarça

domingo, 5 de outubro de 2008

Todo Tempo do Mundo

Perdemos tanto tempo, meu amor.
Nos olhando, profundamente, nos olhos.
Vendo-se encher em lágrimas através do reflexo.
Nossos olhos não são janelas para a alma. São portas abertas.

Perdemos tanto tempo, meu amor.
Falando baixo e sussurrando nossas carícias.
Como se tivéssemos vergonha das plantas e da cama
Que nos escutam com atenção.

Perdemos tanto tempo, meu amor.
Confundindo-se entre braços e pernas.
Entre pêlos e cabelos.
Perdemo-nos em nós.

E então...

Ganhamos tanto tempo, meu amor.
Agora, de lucro.
Temos todo o tempo de mundo
Para tentarmos nos esquecer.


Lorenzo Ganzo Galarça

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Um Poema Bem Arrogante

Apaixonei-me pela vida cedo demais.

Sem antes poder desfrutar a perda de mim mesmo.

Sem antes o não-desfrutar das coisas.

O desprezo.

Que me renderia, anos depois, a re-significação do que pensava.

Que me traria a experiência pronta e morna para ser desaprendida.

Inaugurar uma vida de sentimentos.

Conheci a liberdade da alma, enquanto, ainda, preso às garras escolares.

Encontrei-me com minha autonomia sendo dependente dos outros.

Isso sempre serei.

Dependente de todos os meus eu's que me povoam.

Dependente do chão que piso, com cuidado.

Enamorei-me das rosas e tulipas sem dinheiro para comprá-las.

Vivo, intensamente, as experiências dos outros, apenas pela narrativa.

Falo sobre vivências no trânsito, sem ao menos ter idade para tirar a carteira.

Escrevo sobre mulheres e relacionamentos, apenas estando namorando pela primeira vez.

Sou um adulto arrependido. Renascido em corpo de jovem.

Sou o novo de um passado que nunca existiu.

Sou eu.

Novo.

Para mim, a cada instante.

Renovando e descascando.

E sempre... sempre

Mudando.

Lorenzo G.G.