segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Prazeres Lorenzo Ganzo

Gosto de desmanchar torrões de terra.
Gosto de puxar o fio que descostura da camisa.
Gosto de entrar em estádio de futebol.

Gosto de sentir o cheiro da zero hora, logo de manhã.
Gosto de molhar as minhas plantas mortas. É uma forma de lembrar-lhes a vida.
Gosto de xingar o juiz.
Gosto de beijar minha namorada.

Gosto de cheirar todos os meus perfumes antes de escolher.
Gosto de ler histórias à minha irmã.
Gosto de chutar uma bola com força.

Gosto de concertar a correia da bicicleta.
Gosto de dar abraços.
Gosto de recolher latinhas de refrigerante pelo chão.
Gosto de me sentar no carpete das livrarias.

Gosto de assobiar para os passarinhos.
Gosto de rir com meus amigos.
Gosto de trocar as cordas do violão.
Gosto de olhar o rio e adivinhar o seu tamanho.

Gosto de estalar os dedos.
Gosto de me apaixonar pela lua.
Gosto de ti
Gosto de nós

Enfim, gosto de tudo isso que me cerca.
O dia todo.
Todo o dia.


Lorenzo G.G.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O Canto das Palmeiras

Graúdas como areia
Minhas palavras são peneiradas
Nas mãos quentes e molhadas
Ficam as conchas

E as bolhas
Refletindo o sol
No teu olho verde
Profundo em mar

De estrelas
Canto o grito de guerra
Das palmeiras
Que dançam com o forte vento

Até caírem de contente
Por terem sido parte
Da lembrança
Que em mim ficou

Do templo em que
As palavras fugiam-me
Dos dedos
Para serem areia

Sereia bela
Minha mulher foge
Com minhas palavras
Mar adentro

Com meu suspiro
Com meu canto
Com meu choro

Escuta-te ao longe mulher amada
Tens todo o tempo do mundo
Para fazer das palavras

Tua casa.


Lorenzo G.G.

domingo, 14 de setembro de 2008

A escuridão

Para melhor acompanhar-me
Guiar-me
Pelo silêncio do vazio

Para transpor os escombros
De figuras passadas
Catando o que é reciclável
Em nós

Para criarmos o boneco
Feito de todos
Feito de restos
Feito por mim

Com o sorriso torto
De poucos
Os olhos cerrados
De muitos

Busco a mão que por entre os escombros
Me acena
Que não me de a pena
De dizer adeus

Que me de a vontade
Para ter coragem


Lorenzo G.G.