terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Febríl




Lorenzo Ganzo Galarça

Abandonei a corda em riste.
O silêncio do poço
ecoando em minha garganta.

Segurava o pulso gélido,
acompanhando a sinfonia do sangue.
Os violinos do corpo.

Veio-me aquele desejo
tão conhecido de exilar o vento.

Sinto medo da pronúncia.
A chama ascesa em minha boca
carbonizava toda linguagem não-nascida.

Por Deus,
meu silêncio ferve.
Estou adoecendo termômetros.

Atire-me no mar.
Meu sonho é conhecer
a profundidade do desejo.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Duas Solidões


Arte de : Marc Chagall


Lorenzo Ganzo Galarça

Ninguém nos apresentou.
Carecemos de intérpretes.
Tua boca e o meu silêncio.

Falta assunto, sobra interesse.
Como esperar a vida inteira
por um passado recente.

Transbordamos.
Não fomos solícitos com os dias.
Arranco o fruto antes do tempo.

Pressa é necessidade.
Não há como sentir a vida
sem o apreço pelo instante.

Sabe, tenho dúvidas sobre o caminho.
Parece-me novo, recém trilhado.
O chão e a areia quente.

A folhagem descoberta.
A umidade do rio
flutuando em minha mente.

Acredito que ainda não aprendi
a me dar o espaço para as pernas.

Pois sinto-me estranho.
Confortável.
Encolhido dentro do teu peito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sinais


Arte de: Toulouse-Lautrec


Lorenzo Ganzo Galaraça

Fui te acordar pela manhã
Com o meu beijo quente de cobertor.
Com as minhas estrelas guardadas nos olhos.

Revirastes os ombros nus,
Os seios e os lábios.

Te ofereci minha companhia
E me retribuístes com tua solidão.
Com o teu silêncio de árvore.

Não tenho sequer chances
Contra teu próprio acompanhamento.

Mas me criastes dentro de ti.
Faço parte do teu silêncio exigente.
Do teu desespero comportado.

Reconheço a gratidão,
Deito-me sobre teu corpo,
E adormeço para te conhecer.

domingo, 1 de novembro de 2009

Quando Esqueço


Arte de: Renoir

Lorenzo Ganzo Galarça

Não sei mais o quanto te desejo.
Se é encanto o que encontro
Ou se é descontentamento.

Não acho justo vestir-me da tua pele.
Transpirar os teus sorrisos
E ser também tuas manias.

Ser o outro é impossível
Quando não sou homem para ser eu mesmo.
A paixão vira estratégia.

Não és uma atalho para a saída.
Uma janela redonda, ou um mesmo um trago forte.
És o recreio em minha boca. Meu descanso. Férias em outro continente.

Um alívio: Brincar com meus botões.
Uma preocupação: Quando não o faço.
Um crime: Quando escrevo sobre Amor e esqueço amarrar os tênis.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Galeão-Salgado Filho.


Imagem modificada com Photoshop

Lorenzo Ganzo Galarça

Quase nunca levo vantagem
Nas negociações cotidianas.

Deixo de lado as ponderações.
Esqueço gráficos e estatísticas.

No avião, faço pouso seguro em terra firme
E levo a turbulência pra casa
Voando em meu ouvido.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sob a Tutela do Olhar


Arte de: Robert Rauschenberg


Lorenzo Ganzo Galarça

Lá estava ele, mais uma vez.

A barriga rente ao queixo
Servindo de apoio aos ansiosos cotovelos.
Os cabelos respeitando a solidão da careca.
Seu desespero comportado entre a palma das mãos.

Assistindo-me por entre a selva
Das sombrancelhas.
Sobre o denso manguezal dos bigodes.

Posso jurar que seu olhar transmitia eternidade.

-Conta-me o tempo. Fui rápido?

Perguntava antes o compromisso,
Que a curiosidade.

-Ainda podes mais!

-Aguenta, respira, relaxa. Aguenta, respira, relaxa.

A idade te impossibilita.
As pernas tremem,
Os pulmões suspiram.

Mas, correste em meus olhos.
Tropeçando em minha juventude.
Em choro,

Honravas o Nascimento.

Treinaste-me
Para a vida.

Agora a vida treina-me
Para viver-te.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Irmãos de Trincheira


Arte de: Jasper Johns


Lorenzo Ganzo Galarça

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Nossa pele não tinha endereço.
Fomos herdeiros de nossos filhos.
Nossa força era o que nos mantinha vivos.

Ardemos as mesmas dores.
Não há espaço para a solidão
Quando o susto beira a finitude.

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Nossas alturas não ultrapassavam as raízes.
Revezávamos o conforto da vala.
O corpo acostumava-se com o limite.

Atrofiávamo-nos as pernas, os braços, as idéias.
Lutávamos contra a própria liberdade.
Qualquer vantagem era exilada do convívio.

Respirávamos.
Respirávamos
Um no olhar do outro.

Acompanhavamo-nos de nossa própria sorte.
Eu vivia embriagado de tua sinceridade;
Tu vivias aprisionado em minha plenitude.

Vivíamos unidos pelo grito do silêncio.
Convivemos tempo de mais para não desconstruir as lembranças.
Fomos eternos companheiros.

Respirávamos...

Eu e meu irmão de trincheira.
Um o olhar do outro.
Desconstruindo nossos nomes.