sexta-feira, 1 de junho de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
Arte de Hermann Nitsch
Eu fecho os olhos antes
de apagar as luzes
Apago a chama antes
de riscar o fósforo
e me rabisco todo antes
de me corrigir
Antecipar a falta nunca foi atenuar
a dor das embarcações partindo
Recolher antes da queda
pétalas das mães e dos filhos
Antecipar a falta nunca foi tentativa
frustrada de redefinir ausências
pela negação desse meu planeta
girando
Que teu avião ultrapasse a curva
Que tuas idéias evaporem
Que todos os teus cavalos corram livres
nos campos que ainda são sementes
Que eu não construa represas a tua inundação
Que meu livro termine
Que minha música se interrompa em navalha
Que meus mil e duzentos proletários ludistas
não emperrem a máquina do mundo
Que eu não cobre a vida que não é minha
nem nunca foi
Que meus amores não vivam no futuro
e que meus futuros filhos
me façam nascer de novo.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Caminha Rua da Praia
e "oi, tu tens aquele título?"
tropeça Riachuelo
e desce a Rua da Ladeira
da tua garganta.
Uma e quinze o trabalho começando
paciente ansioso
na sala de espera
Weber, Durkheim, Deleuze
e a tua cintura se dobrando
nas minhas pernas.
Foucault, Hegel, Heidegger
a dialética, o ser e o tempo
do teu chá quase fervendo.
Lacan segunda prateleira, Sponville na primeira,
um claro enigma já dentro da minha bolsa
e o brilho dos teus olhos
anunciando os pássaros logo cedo.
Mas corre
te concentra
não perde o ponto, rapaz.
-Rita Kehl e as crônicas do quê?
perguntam enquanto eu só penso
nas manchetes do teu nome.
quarta-feira, 21 de março de 2012
é o boato que escuto
na voltinha do fêmur
que se espalha chovendo
cidade inteira
Não pense que é sobre você
dizendo por dentro da terra coisas como
dizendo por dentro da terra coisas como
é minha mudança de pele, darling
wait and see
através da janela enquanto
me acertas errando.
Falsificas a arqueologia das pegadas
cobres com terra meu sítio
foges te procurando
e não me encontras na mesma sala
É tão sobre você
que sou eu
púrpura nuvem que avança
violentamente
suave.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
e continuo com os olhos aqui
nestas mesmas crateras de carne
orbitando cada vez mais perto
do centro.
cortamos o tronco da Sequóia
pelo acanhamento de dobrar as pernas
não como o prelúdio do salto
ou instruções do ballet clássico
ou as aulas de aeróbica nas terças-feiras
minha partitura é o recolhimento
os tons do inverno
a expansão da cama
o vácuo nas ataduras da múmia.
o vácuo nas ataduras da múmia.
quem sabe isso não seja
uma boa saída
a cada dia depositar
tal qual cofrinho de porco norte-americano
em caixinhas mínimas
em caixinhas mínimas
um bocadinho de vida
levarei cerca de oitenta dias
me socorrendo.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Arte de Caspar David Friedrich
não fossem as rotas alteradas
e as dorsais pontiagudas das palavras.
em arquipélagos deixaríamos nossa bagagem
não fossem as ataduras da pele
e suas esquinas imóveis
ou a pontuação ártica
de nossos chakras.
reduziríamos à estepe-superfície
todas as florestas equatoriais dos cílios
não fossem os grãos de deserto guardados
dentro dos bolsos.
enquanto isso
façamos o trabalho que não nos leva
a ponto algum do globo.
rolha flutuante
a ponto algum do globo.
rolha flutuante
do ano novo passado.
costurar os retalhos das nuvens
em um grande lençol que cubra o tempo
enquanto o seu lobo não vem.
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